domingo, 17 de janeiro de 2010

O Homem Universal

Em Firenze (Florença), na Itália, o berço da Renascença, o apoio entusiástico dos humanistas às descobertas e ao aprendizado deu inicio a um novo ideal humano – l’uomo universale, o infinitamente versátil homem “universal”, instruído em todos os ramos do conhecimento e capaz de inovar em muitos deles. Aprendiam grego e latim, eram versados nos trabalhos de Aristóteles e familiarizados com os tratados clássicos de história natural, geografia, arquitetura e engenharia.


Para Leonardo da Vinci, ser universal significava reconhecer as similaridades nas formas de vida que interligam diferentes facetas da natureza. Portanto, Leonardo foi o primeiro de uma linhagem de cientistas a salientar os padrões que interligam as estruturas básicas e os processos dos sistemas vivos. Hoje, essa abordagem da ciência é chamada de “Pensamento Sistêmico”. Isso é, segundo Fritjof Capra, a essência do que Leonardo queria dizer com “Facile cosa è farsi universale” (É fácil tornar-se universal). Traduzindo livremente sua afirmação para a linguagem cientifica moderna, Capra a reformula dessa maneira: “Para alguém capaz de perceber os padrões interligados, é fácil ser um pensador sistêmico”.


Para entender um pouco mais o ponto de vista de Leonardo da Vinci é preciso entender como era o seu pensamento. Para ele arte significa habilidade (no sentido que ainda usamos hoje quando falamos da “arte da medicina”, ou “arte de administrar”), enquanto scientia significava conhecimento, ou teoria. Leonardo insistia sempre que a “arte”, ou a habilidade, da pintura deve estar apoiada pela “ciência” do pintor, ou conhecimentos sólidos das formas de vida, por meio do seu entendimento intelectual de sua natureza intrínseca e dos princípios subjacentes.


Ele encarava com uma missão elevar sua arte da categoria de um mero oficio para uma disciplina intelectual tão importante quanto as tradicionais “Sete Artes Liberais” (Na Idade Média, os sete ramos de aprendizado conhecidos como Artes Liberais eram o “trivium” da gramática, lógica e retórica, cujo estudo conferia o grau de bacharel em artes, mais o “quadrivium” da aritmética, geometria, astronomia e música, que conferiam o grau de mestre em artes).


O terceiro elemento da síntese de Leonardo, além da arte [hablidade] e scientia [conhecimento], é a fantasia, a imaginação criativa do artista. Para ele a imaginação do artista permanece sempre intimamente relacionada ao seu conhecimento intelectual da natureza. “As invenções da sua fantasia”, explica Martin Kemp, “nunca estão em desarmonia com a dinâmica universal compreendida racionalmente; são fabulosas, ainda que plausíveis, cada elemento de sua composição derivando das causas e efeitos da natureza”.


Leonardo percebeu que a fantasia não estava limitada aos artistas, mas é sobretudo uma qualidade geral da mente humana. Ao longo da vida, ele se referia a si mesmo como um inventor. No seu modo de ver, um inventor era alguém que criava um artefato ou obra de arte por meio da junção de vários elementos numa nova configuração que não se manifestava na natureza.


Para Capra, parece-lhe, portanto, que o vasto âmbito de atividades e realizações de Leonardo da Vinci, o arquétipo de uomo universale, pode ser mais bem examinado nas três categorias de artista, criador e cientista. Na sua própria síntese, as atividades de inventor, ou criador assim como aqueles de artista, estão inextricavelmente relacionadas a scientia, o conhecimento dos princípios naturais. Ele se referia a si mesmo, em uma de suas expressões mais interessantes, como “o inventor é o intérprete entre o homem e a natureza”.



Referência Bibliográfica:



Capra, Fritjof. A Ciência de Leonardo da Vinci: um mergulho profundo na mente do grande gênio da Renascença. São Paulo: Cultrix, 2008.



0 comentários:

Postar um comentário

Postagens populares

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...