quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Sobre a miséria humana

Noutro dia deparei-me com uma cena um tanto quanto visceral. Vi um exemplar da espécie humana, um Homo sapiens, um ser humano tal qual eu e tu; numa situação lastimável.

Um homem de meia idade tomado por sua necessidade primaria, fisiológica, de busca de alimento, rompendo um saco de lixo que estava aos pés de uma árvore. Lá de dentro ele pegou com as mãos um punhado de macarrão e levou até a boca, mastigou com dificuldade e engoliu aquele alimento que certamente não estava em boas condições.

Ao levantar-se pude verificar que o homem trajava apenas uma bermuda e nada a mais. Além disso ele possuía uma grande ferida supurada na região abdominal, da qual saída um liquido viscoso avermelhado. Certamente aquela ferida estava infeccionada.

Que vergonha fiquei. Vergonha de ser humano. Fiquei também indignado por saber que para tantos outros humanos, que por ali passava, aquele homem parecia invisível. A sensação que tive ao olhar aquela cena, era que aquele homem estava sendo comparado a um cachorro vadio. Nas ruas, tanto um quanto o outro, para muitos, possuem o mesmo valor. Que vergonha! Fiquei ainda deprimido, pois percebi meu limite frente àquela situação. Sou bom com as palavras, mas não com atos concretos.

Um ser humano, que um dia nasceu de uma mulher, que um dia foi criança e como tal sonhou. Não conheço sua história, não faço a mínima idéia de como chegou até onde esta. Talvez o melhor momento de sua vida foi o período gestacional. Talvez nem a causa tenha sido boa.

Ele para mim apresentou-se assim: Um Homo sapiens, mais animal que humano; sujeito às intempéries do mundo, perdido; lutando contra os homens, contras os outros animais, contra o tempo e contra o mundo; lutando para sobreviver à sua maneira; em desvantagem; abafado pelo “sistema”; fraco; ferido; quase morrendo.

Eis o retrato da miséria humana. Eis um exemplo de ser humano que não deu certo. Eis a conseqüência de uma sociedade esmagadora. Quem não acompanha o ritmo sofre conseqüências trágicas, muitas vezes irreversíveis: Stress, depressão, psicopatias das mais variadas e suicídio! Alguns morrem subitamente, outros tantos vão morrendo lentamente; e em qualquer uma das situações a maioria nem sabe o motivo de seu desespero e muito menos de sua morte! Fuga, limite psico-emocional, passividade exacerbada, falta de criatividade,... eis alguns motivos! Muitas vezes suas raízes foram arrancadas à força, ainda em tenra idade; ou pior, foram mutilados psico-emocionalmente ainda jovens. Na fase que eram para crescer foram bloqueados e tiveram seus sonhos perdidos. Alguns os recuperam após anos, outros tantos os perdem para sempre.

Todo ser humano que perde a capacidade de sonhar, não consegue encontrar motivos para viver! Devemos sonhar e não nos iludir! O sonho é bom, a ilusão é nociva. Infelizmente os que perdem seus sonhos, fatalmente enveredam-se na ilusão. Quando isso ocorre os danos sofridos são profundos; ficam cegos, surdos e em alguns casos mudos. Outros tantos perdem o tato e dizem coisas sem sentido. Não apercebem-se mas são tão engraçados quanto artistas de circo, cujo palco social dá-lhes condições de produzirem e atuarem em suas próprias peças teatrais. É tudo ficção! A realidade é outra!

Pobres mortais, enganam-se profundamente. Deixam-se levar pela falácia que alguns detentores do “poder” regurgitam sobre o povo. Engolem tudo isso, até a última gota e acham que estão no topo da cadeia alimentar, no topo da vida, no topo do “poder”. A própria ilusão os engana e desse ciclo não conseguem mais escapar! Morrem sem saber porque viveram!

3 comentários:

Anônimo disse...

Poemas aos Homens do nosso Tempo
de Hilda Hilst



Amada vida, minha morte demora.

Dizer que coisa ao homem,

Propor que viagem? Reis, ministros

E todos vós, políticos,

Que palavra além de ouro e treva

Fica em vossos ouvidos?

Além de vossa RAPACIDADE

O que sabeis

Da alma dos homens?

Ouro, conquista, lucro, logro

E os nossos ossos

E o sangue das gentes

E a vida dos homens

Entre os vossos dentes.



(Júbilo Memória Noviciado da Paixão(1974) - Poemas aos Homens do nosso Tempo - II)

Acredito que este poema da fabulosa Hilda fala exatamente do que voce escreveu e sentiu só com mais poesia do que a realidade na sua prosa!!!!!um beijo Julianna

Anônimo disse...

Lobos? São muitos.

Mas tu podes ainda

A palavra na língua



Aquietá-los.



Mortos? O mundo.

Mas podes acordá-lo

Sortilégio de vida

Na palavra escrita.



Lúcidos? São poucos.

Mas se farão milhares

Se à lucidez dos poucos

Te juntares.



Raros? Teus preclaros amigos.

E tu mesmo, raro.

Se nas coisas que digo

Acreditares.


outro poema.



Bombas limpas, disseram? E tu sorris

E eu também. E já nos vemos mortos

Um verniz sobre o corpo, limpos, estáticos,

Mais mortos do que limpos, exato

Nosso corpo de vidro, rígido

À mercê dos teus atos, homem político.

Bombas limpas sobre a carne antiga.

Vitral esplendente e agudo sobre a tarde.

E nós na tarde repensamos mudos

A limpeza fatal sobre nossas cabeças

E tua sábia eloqüência, homens-hienas



Dirigentes do mundo.



(Júbilo Memória Noviciado da Paixão(1974) - Poemas aos Homens do nosso Tempo - XIV)
não vou dizer nada o que ela disse já basta para o momento.....bjo Julianna

Flávio Nunes. disse...

Olá Jualiana,
O que dizer? Sem palavras...Presenteou-me com poemas e eu tenho apenas o meu MUITO OBRIGADO!
Tenha uma maravilhosa noite!
Abração,
Flávio Nunes.

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