domingo, 15 de agosto de 2010

Procurando Forrester (Finding Forrester)!

Texto de João Luís de Almeida Machado Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

"Encontrando Forrester" é indicativo de caminhos que podemos (e devemos) percorrer, serve como um autêntico mapa a indicar alguns dos melhores percursos para todos. No caso do filme, essa orientação ambienta-se num ambiente ainda mais propício a atitudes que norteiem e apresentem soluções de continuidade para as pessoas, ou seja, numa escola. O que, a princípio, poderia parecer o óbvio, a estruturação de uma relação entre professor, literalmente escolado pela vida e sustentado pelo conhecimento adquirido através de seus estudos, e aluno (ou seu coletivo), tem um deslocamento de eixo, uma transposição de ordem, com os professores e a escola funcionando no sentido inverso daquilo que dela esperamos.

Mas, afinal, o que esperamos da(s) escola(s)?
O filme de Gus Van Sant nos mostra um pouco daquilo que as escolas se tornaram e nos faz refletir se estamos vivendo uma prática educacional que possa ser realmente apreciada e aproveitada por alunos e professores. Um momento de reflexão sobre a educação proposto por um filme, mesmo que tratando de uma realidade que não é a nossa, brasileira, mas a de um país com o qual temos relações tão próximas (assim como todo o mundo e a cultura ocidentais), é um indício de que há qualidades que devem ser examinadas no todo da película.

Mas, voltando a questão, a escola deve ser um ambiente proporcionador de possibilidades de aprendizagem, deve permitir aos educandos o acesso ao conhecimento, deve fazer com que a relação estabelecida entre os estudantes e o que a eles é oferecido por cada matéria seja sedimentada pela curiosidade (pelo estímulo, pelo prazer), deve ser um ambiente que permita a participação e a interação (a troca de experiências entre os alunos e os professores), deve promover projetos e práticas que envolvam os alunos coletivamente, entre tantas outras alternativas de pensar educação que encontramos hoje em dia, essas me parecem ser aceitas por um contingente respeitável de educadores e, admitidas por pessoas que trabalham educação com extrema seriedade.

No filme, o professor (o experiente F. Murray Abraham, vencedor do Oscar de melhor ator, por sua interpretação de Salieri, no ótimo e imperdível "Amadeus", de Milos Forman, sobre a vida de Mozart) defronta-se com uma situação inusitada para seus vários anos de prática educacional ao encontrar em sua sala de aula, numa escola particular frequentada eminentemente por brancos provenientes de uma camada social mais abastada, um aluno negro de origem humilde (chamado no filme de Jamal), alçado a uma melhor possibilidade de estudos em virtude de suas grandes habilidades atléticas (trata-se de um ótimo jogador de basquete) e de seu surpreendente rendimento escolar.

O preconceito racial e social não permitem que o professor seja capaz de perceber o grande potencial do referido aluno, fazendo com que o mesmo se feche a qualquer possibilidade de admitir que os trabalhos e textos produzidos por esse aluno possam mesmo ter sido produzidos por ele.

Jamal passa então a viver uma relação conturbada na escola, onde o professor procura provas de que os trabalhos produzidos por ele tenham sido escritos por uma outra pessoa.

O que faz com que possamos perceber os novos caminhos citados no início do texto é a existência de um terceiro personagem importante na trama, o escritor William Forrester vivido por Sean Connery (de tantos grandes filmes e de imenso talento), autor de um clássico da literatura americana, que depois da publicação e do reconhecimento do livro pela crítica especializada, retirou-se, aposentando-se prematuramente, escondendo-se no Bronx, o bairro onde vive Jamal. Por acidente, os dois acabam se conhecendo e, a relação tempestuosa de início, amadurece de forma a trazer bons resultados para ambos. Além de grande jogador de basquete (o que lhe permite obter o reconhecimento e maior proximidade com os alunos da escola particular onde estuda), Jamal tem grande sensibilidade literária, lê com grande frequência, seleciona suas leituras e, além disso, escreve mesmo quando não há pedidos da escola. Essa insistência, essa persistência de Jamal em ler e estudar, fazem com que Forrester acabe se interessando por ele e o auxilie, troque idéias, aperfeiçoe suas próprias concepções (justamente o que esperamos de nossos professores) e, acabe por influenciá-lo do alto de sua experiência (omitindo a maior parte do tempo sua identidade e, obviamente, sua eminência devido a sua produção literária celebrada).

Não é isso que estamos procurando? Diálogo, troca de experiências, aprendizado por parte dos alunos e também dos professores, respeito e consideração pela maturidade e aperfeiçoamento que o tempo trouxe aos mais velhos, leitura de livros independentemente da obrigatoriedade e das imposições escolares? "Encontrando Forrester" abre canais para que esses temas sejam discutidos, tempera essa discussão com outros temas paralelos de grande interesse (como as diferenças étnicas e sociais, a valorização dos livros clássicos e a necessidade de fazer com que se equilibre a atividade física e intelectual nas escolas) e, além de tudo, é um grande divertimento. Filme de temática séria, nos emociona, nos faz pensar, cativa pela força de seus personagens e pela abordagem sensível do diretor Van Sant (o mesmo diretor de filmes polêmicos como "Drugstore Cowboy" e "Garotos de Programa").

Ficha Técnica

Encontrando Forrester
(Finding Forrester)

País/Ano de produção:- EUA, 2000
Duração/Gênero:- 136 min., drama
Disponível em vídeo e DVD
Direção de Gus Van Sant
Roteiro de Mike Rich
Elenco:- Sean Connery, F. Murray Abraham, Anna Paquin, Robert Brown,
Michael Nouri, April Grace, Matt Damon, Busta Rhymes.

Fonte: www.planetaeducacao.com.br/portal/artigo.asp?artigo=46



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