quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Bomba de Sódio e Potássio + Lanchonete (Trecho do Livro)!


Pelo semblante que portava, o velho professor logo percebeu que algo de muito errado havia ocorrido. Disfarçadamente esperou minha chegada enquanto saboreava o lanche que acabara de comprar. Era um sanduíche natural que continha tomate, alface e uma pasta de frango desfiado com cenoura ralada, ervilha, milho verde e pedaços de azeitona. Era uma refeição caseira, que chegava diariamente à lanchonete. Todas envoltas em papel alumínio. Para beber, havia suco de laranja com acerola sobre a mesa. Ele sempre dizia que após uma determinada idade a imunidade abaixa e as doenças são mais suscetíveis, por isso costumava manter uma dieta sempre equilibrada.

- Não é possível que uma coisa dessas ocorra numa universidade! Cheguei esbravejando. O professor encarou-me, em seguida abaixou os olhos e continuou saboreando o seu lanche.

- Não acredito que em pleno século XXI uma professora universitária explique a matéria errada. Ao mesmo tempo em que falava isso, fui logo puxando uma cadeira e me sentando ao lado do amigo recém adquirido.

- Você está dez minutos atrasado. Tive que começar a lanchar sem a sua presença. Começou ele. Em seguida mais uma mordida.

- Desculpe a demora; é que hoje a professora de Fisiologia teve a audácia de errar algo fundamental em sala de aula. Nesse instante chegava junto de nós uma amiga de turma, que também se encontrava visivelmente abalada com a situação.

- E o que ela errou? Perguntou Francisco.

- Ela trocou o potencial de ação da Bomba de Sódio e Potássio. Disse isso olhando para minha amiga de classe, no que ela concordou com a cabeça.

- E que mal tem nisso? Perguntou o professor.

- Que mal tem nisso? Felizmente ela e eu – disse apontando para a amiga -, estudamos ontem a noite esta matéria. Gostamos de estudar antes de virmos para a aula. Fazemos isso desde que nos conhecemos ano passado, no primeiro semestre. Por causa disso fomos os únicos a perceber de imediato que ela estava errada. Conferimos o livro e todos puderam verificar que sua explicação não era a mesma que encontrava-se ali diante de nós, na página que estava à nossa frente.

Começaram a chegar mais colegas de classe, todos abalados com o ocorrido. Alguns falavam alto, outros só ouviam calados. Entretanto, todos, sem exceção, esboçavam alguma reação de descontentamento. Um a um, todos foram ocupando as cadeiras vizinhas.

Eu estava completamente sem fome. Os acontecimentos daquela tarde, em sala de aula, haviam me deixado completamente abalado. Perguntei para Vivi se ela desejava comer algo, ela disse que também estava sem fome, mas que gostaria de beber um suco de abacaxi com hortelã.

- Você divide comigo? Perguntou ela olhando para mim com aqueles olhos castanhos amendoados e cativantes. Sem reação, sorri e concordei com a cabeça.

Ela saiu para comprar o suco e o professor perguntou algo que naquele momento não fazia o mínimo sentido:

- Como vai o seu relacionamento com sua namorada?

- Muito bem, como sempre! Respondi, fiz uma pausa e completei: - Sei onde quer chegar, mas a Vivi é apenas uma boa amiga. Além do mais ela também tem um namorado e nosso relacionamento não passa de amizade!

Para bom entendedor um pingo é letra. O professor não havia nem tocado no assunto de namoro, e eu logo entreguei o ouro de mão aberta. Para que ele precisava saber se ela tinha ou não namorado, isso não o interessava.

O velho Francisco havia percebido algo no ar. Algo que só a idade e a experiência de vida podem perceber. Os homens e as mulheres, com o passar dos anos, começam a perceber detalhes que outrora seriam imperceptíveis enquanto jovens. O comportamento de dois jovens amigos, numa troca singela de carinhos é um sinal explicito e berrante de amizade ou amor. No fim tudo é amor, contudo o sentido é diferente. Só com a idade ou maturidade é que determinadas nuances comportamentais saltam aos olhos.

O professor percebeu algo que eu levaria a faculdade toda para dar-me conta. Ele percebeu que eu era amigo da Vivi, contudo ela não era apenas minha amiga, ao menos seus sentimentos por mim eram no mínimo mais ternos. Eu tinha minha namorada e ela sabia muito bem disso. Nosso relacionamento não passava de uma bela e cativante amizade. Mal sabia que a sementinha do amor brotava em seu coração, e eu, assim como a maioria dos tímidos que existe neste mundo, demorei muito para perceber.

Ela estava retornando da lanchonete e trazia, seguro por sua mão direita, um copo de suco, que pelo tamanho parecia ser de 500 ml. Em sua mão esquerda havia o troco, o comprovante de pagamento e o que parecia ser dois canudos. Ela caminhava com toda delicadeza, desviando-se das mesas, cadeiras e transeuntes, concentrada, para não deixar derramar uma só gota do suco. Ao chegar onde estávamos colocou o copo sobre a mesa, guardou as moedas e o comprovante de pagamento em um dos bolsos da calça, me deu um dos canudos e...

- Bom apetite Fla. Disse sorrindo.

O professor acompanhou o andamento de toda a cena sem dizer uma só palavra. Ao ver-nos tomando o suco juntos, deu um leve sorriso e desferiu-me uma piscadela, seguido de um sorriso de canto de boca. Aquele era o sinal de que ele, no fundo, estava quase certo do que falara poucos instantes antes.

- Mas qual é mesmo o motivo de tamanho abalo por parte de vocês? Perguntou o professor , iniciando a conversa novamente.

- A professora de Fisiologia I. Ela cometeu um erro gravíssimo em sala de aula. Ela, por total falta de atenção ou desconhecimento, estava ensinando algo errado. Respondi, agora mais tranqüilo.

- Agora me lembro! Tinha a ver com a Bomba de Sódio e Potássio. Não é isso?

- Sim, isso mesmo! Disse Vivi.

- Pois é, faz tanto tempo que não estudo isso. Mas a Bomba de Sódio e Potássio não é um tipo de transporte ativo primário?

- Sim, é isso mesmo! Respondi prontamente. Havia estudado isso na noite anterior com a Vivi, enquanto o namorado dela assistia o jogo de futebol na TV.

- Agora eu estou me lembrando! Disse o professor olhando para o alto, em direção a um ponto qualquer do infinito. Quase podíamos ouvir seus pensamentos. Comecei a assombrar-me com a capacidade intelectual daquele velho.

- Você sabia que assim como os íons de sódio e potássio, também os íons de cálcio, hidrogênio, cloreto e alguns outros, também realizam o “Transporte ativo primário”?

- Sim, sabia! Respondi, concordando também com a cabeça.

- É interessante saber que existe um mecanismo como este esteja presente em todas as células do nosso corpo! Neste exato momento ele está funcionando em nós! Ou seja, o mecanismo que bombeia os íons de sódio para fora da célula, através da membrana celular, enquanto, ao mesmo tempo, bombeia os íons de potássio de fora para dentro da célula. O Sódio por ser positivo e o Potássio por ser negativo, ao entrarem e saírem da célula, através da membrana, estabelecem um potencial elétrico negativo no interior das células e, consequentemente, um potencial elétrico positivo em seu exterior.

Ao falar isso o professor chamou a atenção dos alunos que estavam sentados nas mesas vizinhas. Estavam próximos o bastante para escutarem e acompanhar o professor discorrer sobre o assunto.

- Quando três íons de sódio se fixam na parte interna da proteína carreadora e dois íons potássio se fixam à parte externa da célula, a função ATPase da proteína é ativada. Isso cliva uma molécula de ATP, transformando-a em difosfato de adenosina (ADP) e liberando a energia de ligação fosfato rica em energia. Acredita-se que essa energia provoque alteração conformacional da molécula da proteína carreadora, o que expulsa o sódio para o exterior e traz o potássio para o interior da célula. Isso faz com que haja um controle do volume das células, ou seja, sem essa função da bomba, a maioria das células iria inchar até estourar.

Todos estavam acompanhando o raciocínio de Francisco em completo silencio. Muitos do que estava sentados o redor, viraram suas cadeiras a fim de participar mais ativamente daquela conversa e ouvir a explicação do velho.

- A bomba de Sódio e Potássio que existe em nosso organismo é algo “simples” e fundamental à vida. Que grande mecanismo funcional é este. E ainda gera o potencial elétrico que muda à cada nova troca de íons. É uma verdadeira bomba eletrogênica.

Ali, em meio a sanduíches, sucos e refrigerantes, eles tiveram uma aula de Fisiologia celular inteiramente gratuita. Melhor ainda, entenderam em cinco minutos o que a professora levou meia hora para explicar.

Alguns murmúrios começaram a preencher o ar em volta daquela mesa, e toda aquela sensação de perda de tempo em ter freqüentado a aula havia passado. O velho professor havia oferecido aos jovens que ali estavam, aquilo que eles precisavam e isso o alegrou profundamente. “Você poderia dar aulas no lugar daquela professora”, disse um. “Se ela explicasse a matéria assim, não teria problema algum para entender”, dizia outro na mesa do fundo. “Você parece entender muito sobre este assunto. Isso torna as coisas mais fáceis”, disse uma aluna. E assim os comentários seguiam.

Eu olhava perplexo a reação dos meus amigos, ao mesmo tempo que olhava para aquele homem diante de mim. “Como podia ele lembrar disso após tantos anos”?, perguntava-me mentalmente. “Será que ele era Fisiologista”?, “Como ele conseguiu prender a atenção de todos nós, em tão pouco tempo”?, “Muitos aqui estão vendo-o pela primeira vez, e o que parece é uma empatia mágica; como ele conseguiu fazer isso”? Estas e tantas outras perguntas rondavam-me a mente naquele instante. Todos estavam fascinados com a maneira que ele havia explicado o assunto.

- E é só isso? Uma bomba de íons, no caso Sódio e Potássio, que controla o volume de líquido entre o interior e o exterior da célula, e por causa desse entra e sai, cria um potencial energético? Perguntou um dos alunos com ar de incredulidade.

- Isso mesmo! Isso é tudo o que você precisa saber de mais importante sobre este assunto. Ao menos por hora! Após isso vem outras coisas associadas, afinal o organismo é um conjunto de pequenos mecanismos funcionais, que tem como principal função promover a Homeostasia do corpo, ou seja, o equilíbrio, a boa condição, constante, do meio interno!

Muitos ali sabiam o que isso significava, mas outros tantos olharam para Francisco com cara de vaca no pasto, ou seja, com cara de “O que”? “Como”?

- Gostaria de pedir lincença aos que já sabem o que significa homeostasia e falar para aqueles que já ouviram o termo, mas não sabem seu significado! Falou isso olhando diretamente em minha direção.

O copo de suco que Vivi trouxera ainda estava 1/3 cheio, e isso era raro quando tomávamos suco juntos, pois, normalmente, não se passavam dois minutos e tudo já estava acabado. Olhei ao redor e vi que muitos ali estava com os olhos grudados no professor. Mesmo aqueles que eu sabia conhecer a resposta, o olhavam com respeito e curiosidade.

- Por exemplo, os pulmões fornecem oxigênio para o líquido extracelular para repor o que está sendo consumido pelas células; os rins mantêm constantes as concentrações iônicas e o sistema gastrintestinal fornece nutrientes para o corpo. Isto está relacionado ao modo como cada órgão ou tecido contribui para a homeostasia, ou seja, o corpo possui uma ordem social com cerca de 100 trilhões de células, organizadas em diferentes estruturas funcionais, algumas das quais chamamos órgãos. Cada estrutura funcional contribui com sua conta para a manutenção das condições harmônicas de todo o corpo. A interação recíproca entre os diferentes tecidos, e órgãos, do nosso ambiente interno, resulta em automaticidade contínua do corpo, que perdurará até que um ou mais sistemas funcionais percam sua capacidade de contribuir com sua cota de funcionamento. Quanto isso ocorre, muitas células do corpo sofrem. A disfunção extrema leva à morte, enquanto a disfunção moderada, ou parcial, causa a doença. Mas tudo isso que digo aqui vocês encontraram nos livros de Fisiologia. Este que está com a Vivi por exemplo – apontou para o livro que ela havia colocado sobre a mesa ao chegar -, é ótimo para a consulta e estudos. Além do mais, quando começarem a disciplina de clinica médica, verão que tudo isso faz um grande sentido e será de grande valia.

Assim como eu, outros ali já haviam escutado aquela explicação em sala de aula, contudo tudo parecia estar envolto numa nova atmosfera, tudo parecia estar mais límpido e claro. Olhei para os lados novamente e vi os olhos atentos, os sorrisos e os murmúrios de contentamento. Estávamos participando de algo que parecia ser uma nova aula de fisiologia, sem ao menos darmos conta disso e melhor ainda, sem cansaço ou lamentação alguma. Estávamos todos sentados ali por livre e espontânea vontade. Nada nos prendia àquele lugar, afinal estávamos na lanchonete da universidade.

Éramos todos alunos de medicina, de uma faculdade muito bem conceituada. Aquele que nos falava era um velho professor universitário e até onde sei havia feito faculdade de Medicina Veterinária a muitos anos atrás, havia clinicado por um período, mas logo percebeu que seu caminho era outro. Não nascera para ser clinico, contudo acadêmico. “Como explicar para meus amigos que o homem que os estava ensinando e que os fizera entender conceitos básicos de fisiologia era na realidade um Médico Veterinário”? “Melhor não comentar”, pensei. O que fiz a partir de então foi acompanhar o raciocínio veloz e sagaz de Francisco e as reações dos meus amigos de turma.


Um vídeo ilustrativo:




PS: Tenho recebido algumas mensagens de pessoas perguntando: "Como faço para deixar um comentário no seu Blog"? É simples, basta clicar no número que encontra-se do lado direito de cada Título! Aguardo os comentários! Desde já o meu MUITO OBRIGADO!

2 comentários:

Fábio disse...

oi Flávio... gostei do trecho, você tem o nome dele? Parece ser um livro interessante, passe o nome dele em meu twitter por favor. abrigado

Flávio Nunes. disse...

Olá Fábio,
Fico muitíssimo feliz que tenhas gostado deste trecho e que o achou interessante!
Infelizmente não tenho o nome do livro. Para falar a verdade, ele ainda não foi publicado! Estou escrevendo-o aos poucos. É um projeto que iniciei a pouco mais de seis meses!
Ainda tenho muito o que escrever e sabe-se lá o que acontecerá com Francisco e com Flávio, meus personagens!
A única coisa que posso contar é que são pessoas interessantíssimas e terão diálogos variados, sobre diversas área do conhecimento!
Mais uma vez, obrigado pelo seu comentário!
Tenha um ótimo dia!
Abração,
Flávio Nunes.

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