segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Ciência x Religião!

Uma reflexão pessoal sobre ciência e religião

(Parte I)


Por: Flávio Nunes.


Introdução


A quase dois anos, enveredo-me pelos estudos que buscam unir os pensamentos científicos e religiosos. Busco entender e refletir sobre os pontos de concordância e discordância que há nesse diálogo, muitas vezes tão desnecessariamente tenso.

Já aqui, no começo da minha explanação, vale dar ênfase a um fato importante e que se encontra no meu discurso e formulação de pensamento: Estou convicto que pode sim haver um diálogo sadio e não-agressivo entre ciência e religião!

Sou o “atalho” de todos os conceitos que já li, refleti e absorvi. Meu ponto de vista pode ser semelhante a tantos outros, contudo jamais será igual. Minha forma de conceber o mundo é diferente de todos os demais indivíduos existentes no planeta. Tal fato porta-me a criação de um conceito particular sobre ciência e religião; semelhante a alguns e diferente de tantos outros.

Meus conceitos e fundamentos científicos, no que diz respeito à integração entre Ciência e Religião, é semelhante ao que entende-se por “Matrimônio”. Neste, dois indivíduos, um homem e uma mulher, distintos entre si, enamoram-se e desejam, num determinado momento, viverem juntos para o restante dos seus dias. Conhecendo-se mutuamente a cada dia, ajudando um ao outro a melhorar suas partes falhas, trabalhando e desenvolvendo os pontos comuns, compreendendo compassivamente os pontos falhos do outro. Estes são apenas algumas de tantas outras características satisfatórias que pode ocorrer se ciência e religião um dia resolverem se casar!

Este texto é um esboço inicial, onde introduzo meus conceitos e começo a desenvolver, de forma concisa, minhas observações pessoais, reflexões e projeções sobre este tema ainda tão em voga na atualidade: Ciência x Religião!


Linhas Iniciais


Em minhas pesquisas não vejo motivos para discordar dos trabalhos publicados sobre evolução e outras áreas afins. Acredito que os estudos produzidos por tantos ilustres cientistas nas últimas décadas, e contemporaneamente, forneceram e ainda fornecem dados importantes sobre a evolução dos seres vivos. Acredito que a terra tenha alguns bilhões de anos e que as primeiras formas de vida surgiram a alguns milhões de anos. Não obstante a esta minha crença cientifica, e às pesquisas que venho empreendendo, acredito em Deus. Por que não acreditaria? Entretanto não confundam minha crença e minha fé; não sou Criacionista e nem adepto fiel do “Designer Inteligente”!

Só por expor este ponto de vista, que gera no meio religioso e acadêmico inúmeros “atritos”, alguns cientistas poderiam dizer: “Hipócrita! Isso não é fazer ciência! Não sabe do que está falando”. Enquanto isso, por outro lado, alguns religiosos talvez diriam: “Não se pode obedecer a dois deuses! Se acreditasse realmente em Deus, descartaria tais pensamentos científicos”. Acredito que todos aqueles que pensem dessa forma, sendo iletrados, ateus, religiosos, graduados e/ou pós-graduados; possuem um “véu espesso” diante dos olhos. Tal “véu” bloqueia suas percepções de mundo. São pessoas certamente individualistas, e que comungam de uma pseudo-intelectualidade, enraizada numa conduta puramente ideológica.

Enquanto a base do diálogo for “o meu é melhor do que o seu”, ou ainda “o meu é superior ao seu”, enquanto isso ocorrer, nunca chegarão num denominador comum. Sempre haverá “guerras” e conflitos!

Penso que, sobre esta ótica, ambos estão errados e precisam amadurecer o seu lado antagônico. Ao menos conhecê-lo melhor. Após o conhecimento mutuo, se ainda restar divergências, tal fato dever-se-á à percepção que o individuo tem de mundo, que de uma maneira ou de outra, é fundamentada na ausência de compaixão, empatia e diálogo. Certamente faltou-lhe diálogo e liberdade de pensamento, ainda nos primórdios de sua vida, ou seja, no inicio do seu desenvolvimento intelectual. Certamente certas “verdades” lhe foram impostas ao invés de discutidas e ponderadas.

Conduzidos pela linha cultural dos últimos três séculos, e pela pronunciada individualidade que vem tomando conta da sociedade atual, defender o próprio ponto de vista torna-se questão de vida ou morte. Para alguns é uma questão de racionalidade, para outros tantos uma questão de “acreditar sem ver”! Ambos possuem fé que aquilo em que acreditam gerará frutos num futuro não muito distante e que o seu opositor será “esmagado” pelo peso da verdade incontestável de seus argumentos. Quanta tolice! Há respeito em tais argumentos? Há integração e diálogo? Infelizmente a resposta é negativa para ambas as perguntas.

Descobri que não somos seres constantes e nada do que produzimos é uma verdade eterna e absoluta. Estamos todos num estável e ininterrupto desenvolvimento. Desenvolvimento emocional, psicológico, moral, ético, anatomo-funcional, entre outros. Isso é algo falado e explicado tanto por cientistas quanto por religiosos. Ambos comungam dessa premissa. Estanho não entrarem num acordo ano menos nisso, você não acha? É difícil saber que o opositor está certo em alguns aspectos e concordar com isso! É “mais fácil” discordar, gerar pontos de tensão e contra-argumentar, desenvolvendo outras interpretações de um mesmo aspecto e/ou ponto de vista. “Blá, blá, blá”, a mesma coisa dita com inúmeras outras palavras!


Influências: Base Conceitual


A ciência está em evolução, assim como a religião o está. Isso faz com que todos nós, humanos (E o restante dos seres vivos), que vivem individual e coletivamente, soframos influencias capazes de tirar-nos do “ponto de equilíbrio” e colocarmo-nos no rumo do “vir a ser”! O amadurecimento faz parte da natureza de qualquer ser vivo. Não tenha dúvidas, todos evoluímos e isso é um processo contínuo!

Consciente ou inconscientemente, em maior ou menor intensidade, todo e qualquer ser vivo está neste exato momento sofrendo influencias do meio em que se encontram. Para todos aqueles que estão começando a estudar assuntos relacionados à Evolução, eis uma pergunta para meditação: Como, ao longo de milhares e milhares de anos, um grupo de indivíduos, de um táxon por exemplo, pode perder ou acrescentar uma característica à sua constituição física e/ou psico-emocional? A não ser quando ocorre uma mutação abrupta, não vejo outra saída senão uma mudança gradual e paulatina. Estas mudanças são tão marcantes e significativas que chegam ao ponto de fazer o metabolismo aumentar ou diminuir; faz com que no lugar onde havia uma película de lipídio e proteínas, surja algo mais denso, chegando a formar-se “placas” de proteção, e destas surgem anexos como pêlos em uns e penas em outros; faz com que patas tornem-se nadadeiras, entre outras coisas fantásticas. Tudo isso, ligado diretamente ao meio onde cada individuo, ou um grupo de indivíduos, estão inseridos.

Os individuos “caminharão” mais ou menos, de acordo com aquilo que para eles, ou para o grupo, seja prioritário. Falando dos seres humanos, todos possuem condições de desenvolverem suas faculdades mentais em condições semelhantes de importância; salvo os que nascem com alguma anomalia anatomo-fisiológica e/ou genética, que os proíbem de atingirem elevados graus de desenvolvimento. Vale lembrar aqui que há aqueles que nascem com um alto grau absorção de informação. Não são muitos, mas merecem destaque.

Há uma distancia gigantesca entre perceber, assimilar, modificar e renovar. Mas nada que milhões de anos não dêem jeito. Como acham que chegamos onde estamos? As mudanças são, na maioria das vezes, quase insignificantes, contudo sempre estão presentes.

Com o advento da física quântica, muito do que tínhamos como pequeno, tornou-se “quase invisível”. Consequentemente o entendimento e a visualização da proporção de modificações “micro” elevaram-se drasticamente. Numa escala micro, uma partícula pode influenciar outra e isso pode levar à estabilidade ou a instabilidade de determinadas estruturas, tanto micro quanto macroscopicamente. Eis aqui uma constante influencia que sofremos e que dia após dia passa, desapercebidamente, pelos nossos sentidos. Está acontecendo agora, e agora, e agora, etc; tendendo ao infinito. Pequenas influências, constantes, contínuas, e que por milhares de anos geram modificações em todos nós.


Fisiologia Evolutiva


Dedico-me à pesquisa e ao estudo das ciências naturais. Uma das áreas de maior destaque em meus estudos é a Fisiologia Evolutiva. Esta objetiva elucidar a maneira como os organismos funcionam, e de que forma estes padrões funcionais possibilitaram seu sucesso e a ocupação de diferentes hábitats ao longo do tempo, evidenciando relações filogenéticas.

As grandes áreas que se integram e fazem parte da abordagem integrativa da Fisiologia Evolutiva são: Fisiologia, Ecologia e Comportamento. Dentro destas, destacam-se as subáreas Ecofisiologia e Fisiologia Comparativa. Na primeira, elucidam-se os caracteres e demonstra-se o significado destes para a sobrevivência do organismo no ambiente natural. Na segunda, a maior contribuição está no corpo de dados acumulados sobre o funcionamento de características fisiológicas em diversos grupos. Assim, Fisiologia Evolutiva também tem implicações nos estudos de biogeografia e diversidade (Silva e Brito, 2009).

Os organismos possuem mecanismos fisiológicos e/ou comportamentais que lhes permitem permanecer e estabelecer populações nos mais variados ambientes. Pouco se sabe sobre a cadeia detalhada de eventos que ocorre em um organismo, a partir de um estímulo ecológico sobre uma população natural, e a manifestação da resposta nas características fisiológicas. O paradigma geral é que os genes codificam o fenótipo, o fenótipo determina o desempenho do organismo no ambiente natural, o desempenho determina o sucesso daquela linhagem (fitness) e este determina a freqüência de alelos no pool gênico da próxima geração (Garland e Carter, 1994). Os detalhes do que ocorre em cada um dos passos cabe à Fisiologia Evolutiva.

A abordagem bioquímica pode ser usada para estudar o significado evolutivo da variação genética em um gene específico em resposta a mudanças ambientais (Garland e Carter, 1994). A Fisiologia Evolutiva aprofunda-se na interface ambiente-fenótipo, fazendo correlações entre ambos, com o pressuposto de que variações na fisiologia tenham bases na expressão genética. No entanto, pouco se conhece sobre a herdabilidade de caracteres fisiológicos e plasticidade fenotípica (Silva e Brito, 2009).

Ambos os efeitos, genético e ambiental, durante o desenvolvimento e ontogenia do indivíduo, determinam mudanças em características bioquímicas, fisiológicas ou morfológicas (Svidersky, 2000). Atuando em conjunto, essas características determinam o desempenho do organismo como um todo. Tal desempenho define a extensão ou os limites das capacidades de um organismo, e o comportamento, por outro lado, indica como um organismo usa essa capacidade. A seleção, por sua vez, atua mais diretamente no comportamento, porém o comportamento é limitado pelo desempenho (Garland e Carter, 1994). Por isso, as variações genotípicas ou bioquímicas deveriam estar sujeitas à seleção se elas tivessem efeito no nível do desempenho do organismo e, portanto, comportamental. A definição operacional de seleção natural como uma correlação entre fitness e fenótipo nos conduz a possibilidade de que efeitos ambientais atuem diretamente no desempenho ou comportamento (Silva e Brito, 2009).

Além do exposto acima, a Fisiologia Evolutiva leva em consideração três fatores para a sua completude: A Seleção, o Tempo e a Adaptação Fisiológica. Alem disso tanto a Ecofisiologia quanto a Fisiologia Comparativa, áreas que se integram dentro da Fisiologia Evolutiva, utilizam três técnicas atuais para refinarem seus estudos: 1) Métodos Filogenéticos Comparativos; 2) Estudos de Seleção e 3) Técnicas de Genética.

Não é o momento de desenvolver nenhum destes temas no presente artigo, contudo o conhecimento de tais tópicos serve de base para futuros diálogos. Estes estudos vêm trazendo grandes contribuições ao mundo acadêmico e à sociedade como um todo.

A integração de pesquisadores oriundos das diversas áreas, que mantenham o apreço em tratar das questões científicas à luz da multidisciplinaridade, e estejam dispostos a fazer uso do vasto arsenal instrumental de que se dispõe, trará, certamente, contribuições muito significativas para o entendimento da história evolutiva da vida na Terra (Silva e Brito, 2009).


Conclusão


Meus esforços estão voltados para o desenvolvimento de uma metodologia capaz de levar ao publico, de uma maneira geral, o sentido integrador entre ciência e religião.

É preciso fazer as partes, de uma lado a ciência e do outro a religião, encontrem um ponto de equilíbrio. Cada uma com sua essência, entretanto ambas desenvolvendo um dialogo produtivo e harmonioso, para maior gloria da natureza e da humanidade. Um “casamento” onde diferentes indivíduos, distintos entre si, enamoram-se e decidem partilhar uma vida em comum.

Somente quando este enamoramento ocorrer, só neste momento, poderemos vislumbrar uma cultura realmente unitária e fraternal surgir e perpetuar-se. Não existirá mais superior ou inferior, melhor ou pior; existirá apenas seres intelectualmente capazes, evoluindo sinergicamente, mesmo cientes dos seus limites e incapacidades.


Referências Bibliográficas:


Garland, T.; Carte, P.A. (1994) Evolutionary Physiology. Annual Reviews Physiology. 56: 579-21.

Silva, M.; Brito, A. (2009) Darwin e sua Blasfema Teoria. In: Livro do VI Curso de Inverno – Tópicos em Fisiologia Comparativa, Unidade 4: A curiosa saga da Fisiologia Evolutiva – USP.

Svidersky, V.L. (2000) Tasks and Perspectives of Development of Evolutionary Physiology.Journal of Evolutionary Biochemistry and Physiology. 36 (3): 223-234.

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