quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Loucura social (Trecho do Livro)!


“Ainda bem que este é o último do dia”, pensou o Sr. K, funcionário responsável pela avaliação dos infratores.

Pegou a pasta, abriu, leu o nome do réu e pulou direto para o laudo escrito pelos policiais. Aquele texto narrava de forma rápida e corriqueira, numa linguagem nada rebuscada, o ocorrido no bar da Rua 19 de Setembro! Pulou o cabeçalho, onde continha as descrições físicas do infrator e alguns dados pessoais. Não gostava muito de ler esta parte, pois nela continha o número da marcação magnética que todos traziam no quinto dedo da mão esquerda. Após a revolução genética, todo ser vivo foi “marcado” geneticamente. Não bastava mais a nossa singularidade, e todas as particularidades que cada indivíduo possuía, isso foi reformulado pelos cientistas e pelos governantes no pós-guerra. O controle populacional deveria ser contido.

Após a terceira grande guerra mundial, ou seja, após a “perfeita treva” como ficou conhecido este período que durou sete longos anos, o mundo sofreu outra guinada. Achávamos que as coisas não poderiam piorar, entretanto o mal sempre retorna quanto o bem não faz nada. Estávamos colhendo as conseqüências do nosso descaso perante a vida e por termos negado aquilo que nos fazia muito mais humanos que bichos, a nossa fé.

“Raiva excessiva, descontrolado, alcoolizado,...blá, blá, blá.. São sempre as mesmas queixas”, pensou o Sr. K passando os olhos sobre os pontos principais daquele texto, que havia sido grifado previamente por sua assistente.

- Srta. Helena, o infrator está pronto para a avaliação? Perguntou o Sr. K diretivamente.

- Sim Sr. K, ele já está na sala da avaliação lhe esperando! Respondeu ela também diretivamente, como havia sido treinada na academia. Ela era uma jovem promissora, mas só havia começado seu estágio a uma semana, ou seja, não tinha experiência alguma na função a não ser carregar o material do velho avaliador, anotar suas obrigações, estar ciente que tudo caminhava bem e, é claro, tentar aprender alguma coisa sobre sua futura profissão: Avaliadora de Casos! Ela era fruto do pós-guerra e como tal não conhecia o mundo antes da destruição dos continentes. Era inteligente, bela, perspicaz, uma profissional exemplar.

O Sr. K, apesar da idade, ainda tinha energia suficiente correndo por suas veias. Ele sofrera muito com a guerra, perdeu amigos e familiares, mas sobreviveu e hoje utiliza seus conhecimentos para tentar colocar um pouco de ordem num mundo destruído pela ganância e ambição de alguns poucos de nossa espécie.

Entraram na sala e lá estava o homem sentado, e acorrentado, à cadeira. Era uma medida preventiva e aplicada a todos os que continham em seus Relatos de Detenção a palavra “Descontrolado”. Como 90% dos relatos continham aquela palavra, a cadeira era muito utilizada.

O velho avaliador e sua assistente andaram até a mesa, acomodaram-se em suas cadeiras e olharam fundo nos olhos do homem que estava acorrentado no outro lado da mesa. Ele era alto, talvez tivesse uns dois metros de altura; possuía cabelos castanhos escuros, pele clara e aparentava ter uns 30 anos. Tudo isso estava escrito no laudo encaminhado pelos policiais, mas o Sr. K gostava de descobrir tudo pessoalmente. Ele dava-se de presente esta pequenina emoção.

O homem, sem dizer nada, começou a se contorcer sobre a cadeira, mas as correntes estavam muito bem presas e toda sua força de nada adiantava diante daquele metal que ligava seu corpo à cadeira. Não fosse uma pequena folga na corrente da mão esquerda, as outras estavam muito bem fixadas e justas. Ele era forte, isso se podia notar de longe. “Certamente os policias tiveram trabalho para conter este grandalhão”, pensou o Sr. K. “Que homem bruto e nojento”, pensou a assistente. Numa última tentativa de soltar-se, o homem levantou as mãos ao máximo e do outro lado da mesa os dois puderam ver que lhe faltava um dedo na mão esquerda. “O quinto dedo”, pensaram juntos. Estavam diante de um Insurgente.

Quase não se viam mais Insurgentes. Os que ainda viviam, eram extremamente astutos e muito difíceis de serem apreendidos. Eles transitavam pelas ruas, mas por obra da tecnologia, suas amputações não eram notadas. Viviam normalmente, mas lutavam às escondidas contra o mal que a revolução genética lançou no mundo: O direito de manipular geneticamente toda e qualquer forma de vida. Inclusive nós, humanos! Eles defendiam a concepção natural da vida e abominavam o aborto! Para os Insurgentes, tudo começou quando foi aprovada uma lei mundial, patrocinada pelos países mais ricos e pelas indústrias farmacêuticas, que garantia à mulher o direito de abortar quantos filhos quisesse. Tudo em função do controle populacional e ênfase exacerbada sobre a estética. Foi a busca excessiva da excelência e soberania humana que nos levou à ruína.

“Mas como este aqui conseguiu ser capturado? A meses eu não via um”, pensou o avaliador. Em meio à estarrecedora averiguação, o homem se acalmava. Não passaram-se trinta segundos e o avaliador começou:

- E então me Sr., como se chama?

O homem ouviu, permaneceu calado e com a cabeça baixa. Pareceu não dar importância ao que o Sr. K havia perguntado. A única reação observada foi sua respiração ofegante.

- “Sr., devo-lhe lembrar que deves responder as perguntas que lhe faço! Isso será a sua melhor saída. Muitos dos casos são resolvidos aqui e nem precisam ser levados ao tribunal. Se desejas que eu te ajude, você deve ajudar a si mesmo antes de tudo. Por este motivo lhe peço cooperação e tudo se resolverá da melhor maneira possível”! Estas palavras faziam parte do protocolo utilizado pelos avaliadores de casos. Como tal, o Sr. K, as utilizava todas as vezes que percebia que o réu não iria cooperar. Sem contar que quanto mais cedo terminassem sua avaliação e encaminhamento, mais cedo iriam para casa.

A assistente rascunhou algo num pequeno bloco de anotações, destacou a folha e entregou para o velho avaliador: “Ele não vai cooperar. O que faremos?”. O Sr. K escreveu a resposta e devolveu o papel para sua assistente. “É claro que ele vai cooperar. Uma vez que descobrirmos o motivo que o trouxe até aqui, preencheremos a ficha e o encaminharemos”! Esta era a resposta.

A ficha era objetiva e tudo o que nela continha decidia o destino do réu, que poderia sofrer três encaminhamentos: Prisão, tratamento psicológico ou morte. Caso o réu já tivesse cumprido pena e cometesse outro delito, iria para a prisão perpétua ou diretamente para a Caixa Preta. Esta última era o nome do lugar onde os sentenciados à morte iriam. Alguns diziam que alguns não morriam de fato, mas transformavam-se em colaboradores, ou seja, carrascos ou recolhedores de corpos. Entretanto, ninguém que fora julgado e sofreu pena de morte, saiu da Caixa Preta vivo! Desde que ela foi inaugurada no pós-guerra, jamais houve uma fuga.

- “Sr., o seu nome por favor”? Perguntou mais uma vez o velho avaliador.; Após alguns instantes prosseguiu: “Sr., o seu nome e o seu número de identificação”! “Sr., queira cooperar”!... Algo em torno de cinco minutos se passaram e nenhuma palavra saiu da boca do Insurgente. O velho Sr. K, em nenhum momento havia se exaltado e sabia muito bem qual era o argumento final para estes tipos. Pegou a ficha de avaliação, virou a primeira e a segunda folha, voltou os olhos ao homem acorrentado e disse:

- “Sr., faz parte da lei que lhe assiste e que me dá o poder de avaliá-lo, comunicar-lhe que por abster-se de pronunciar uma só palavra em sua defesa, seja necessário pularmos para a folha da condenação à morte! Já que não houve cooperação de sua parte, e frente ao laudo que me fora entregue pelos policiais, o senhor será encaminhado para a Caixa Preta! O que valerá serão as palavras dos policiais e esta ficha que preencherei a partir de agora! Precisarei passar o leitor do código magnético sobre seu antebraço esquerdo, para pegar o seu número de registro no ministério.

O avaliador tirou a máquina de sua velha pasta de couro, levantou-se e caminhou em direção ao homem. Aproximou-se do homem, levou sua mão direita até a altura do braço e com a mão esquerda aproximou a máquina. Havia feito isto milhares de vezes desde que começou a trabalhar como avaliador a pouco mais de oito anos. Qual foi sua surpresa ao perceber que a máquina não lia o código. “A máquina está funcionando perfeitamente bem”, pensou. Passou novamente o laser no braço do homem e nada; nenhuma leitura foi feita. De repente ele percebeu o ocorrido, o homem não tinha o marcador fixado sob a pele do antebraço.

Aquela aproximação era tudo que o insurgente precisava. Aproveitando-se do momento de desequilíbrio do avaliador, o homem levantou a mão e agarrou a manga de seu paletó. Um clima de tensão surgiu no ar. O velho havia sido agarrado pelo homem que estava sob sua avaliação e a assistente, pela sua falta de experiência, entrou em estado de choque e gritou o mais alto que conseguiu. Contudo, de nada adiantou, pois a sala era a prova de som. Queria ajudar, mas não sabia como. O medo tomou conta do seu corpo, e por este motivo não conseguiu mexer um só músculo. O mesmo reflexo que a levou a gritar, levou-a, em seguida, a desmaiar. Tudo ocorreu numa fração de segundos. O gato pegou o rato.

- “Sr. K, eu o conheço! Na realidade conheço todos vocês. Gostaria que você não fizesse alarde algum e se me escutar com atenção vou soltá-lo, aí poderá me condenar à morte. Sei que está ansioso por isso! Isto lhe dá prazer não é? Não minta para mim, você adora o poder que tens”! Estas palavras saíram da boca do réu em tom baixo e levemente rouco.

- O que você quer de mim? Perguntou o avaliador.

- Quero que me conheça antes de sentenciar-me à morte simplesmente por não compreender aquilo que você não sabe explicar. Uma assinatura sua é capaz de matar muitos homens e mulheres, você os descarta sem ao menos se dar ao luxo de conhecê-los. Dê-me a oportunidade de contar-lhe algo sobre o mundo que o senhor desconhece. Ainda assim, se meus relatos não forem satisfatórios, poderá matar-me, mas não faça isso antes de conhecer aquilo que há alem das muralhas ao norte da Polis! Salve-se Sr. K. Tire o véu espesso que cobre seus olhos. Se quiser eu posso fazer isso!

Após estas palavras o homem deu um leve sorriso e contorceu-se de dor. Soltou o avaliador e sofreu uma torturante descarga elétrica que viera conduzida pelas correntes amarradas em seu corpo. Atônito, o velho afastou-se do homem imediatamente. Deu alguns passos para trás enquanto via o corpo do homem contorcer-se de dor. A tortura durou apenas alguns instantes, mas foram suficientes para fazer o homem desmaiar e de seu nariz escorrer dois lastros de sangue.

Imediatamente, três policiais entraram na sala. Um foi em direção à assistente desmaiada, outra fora em direção ao avaliador e o outro em direção ao réu. O que estava mais próximo ao réu perguntou:

- E então Dr, este aqui vai para Caixa Preta?

O velho respirou fundo, enxugou o suor que descia pela sua face, repassou as palavras do homem em sua cabeça e disse:

- Não, coloquem-no na solitária. Será o melhor lugar para ele, por enquanto. Ainda não fiz a minha avaliação. Além do mais preciso saber mais coisas sobre este homem antes de condená-lo!

Os homens assentiram com a cabeça, desamarram-no e o levaram à solitária. Nesta altura a assistente já estava acordando e o Sr. K pensava no próximo encontro com o desconhecido. De alguma forma ele o havia tocado. “Afinal, que mundo é este que desconheço e que ele tem a me oferecer”? Pensou o velho avaliador.

0 comentários:

Postar um comentário

Postagens populares

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...