quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Discussão (Des)necessária!


- Por que você está usando esta roupa? Perguntou o homem ao rapaz que calçava um sapato preto velho, uma camisa social velha e calça jeans bem larga, nitiamente um ou dois números acima do seu tamanho original.
O rapaz ouviu a pergunta e sem quase pestanejar respondeu com outra pergunta:

- Por que você está usando esta roupa?

O velho trajava um terno de linho fino impecável, uma gravata de seda verde musgo e um sapato Mocassim italiano. Estava com a barba bem aparada, ao contrário do jovem que estava com a barba por fazer.

- Eu estou trajando um terno Brioni legitímo e você o que traja meu rapaz? Disse o velho com ar de soberba e incitando o jovem a uma discussão sem nexo algum!

- Eu estou trajando um legítimo jeans, uma legítima camisa social e um legítimo sapato, todos sem marca conhecida, contudo muito confortáveis e bem funcionais! Respondeu o jovem com um sorriso de canto de boca.

- O que você quer dizer com "bem funcionais" e de onde vem a "legitimidade" de suas roupas se não são de marca? A essa altura o velho havia conseguido o que queria; comprar uma briga desnecessária com uma pessoa qualquer que, segundo ele, tratava-se de um indivíduo fora de sua alçada social e econômica, ou seja, inferior.

- Em filosofia "legitimidade" é todo conhecimento justificado. Dessa maneira, digo que uma peça qualquer de roupa é o que é, pois sua função justifica os seus fins e isto é algo autêntico e real. Quanto ao "bem funcionais", creio que a primeira resposta, responda também a segunda pergunta, por isto atenho-me a primeira explanação. Não quero gastar energia desnecessária!

O velho não esperava aquela resposta e por um segundo arrependeu-se de atirar pedra no vespeiro. Agora era tarde, teria que sustentar a discussão até o fim e, segundo sua reputação, teria que "ganhar" aquela contenda.

- Não sei do que você está falando meu jovem! Tudo isso é para mim um grande Blá-blá-blá! Se não tens condições de vestir-se bem, não é digno de pisar neste pedaço de chão! O velho dizia as palavras ao mesmo tempo que apontava para uma das janelas, donde podia-se ver todo o requinte daquele explendoroso hotel de luxo. Após isso, apontou para a porta de saída.

- Não quero que entendas minhas palavras, só desejo que perceba uma única coisa: Estamos em posições semelhantes, contudo eu estou em vantagem perante você! Disse isso sorrindo, o que intensificou mais ainda a ira do velho.

- Quanta besteira você me fala! Nem de perto estamos em posições semelhanes, que dirá você estar em vantagem! Acho que você está delirando meu rapaz; deve está fora da realidade!

- Que é a realidade para o senhor? E o que o senhor entende por semelhante? Perguntou o jovem.

- Isto que estamos vivendo é a realidade, ou seja, o hotel, o requinte, as roupas finas, as comidas preparadas pelos melhores chefes, etc, etc, etc. Quanto à "semelhança", entendo ser dois indivíduos que, mesmo ocupando dois lugares no espaço, possuem características próximas!
Nessa altura já formava-se um pequeno grupo de pessoas ao redor dos dois homens, curiosos na maioria, procuravam escutar e acompanhar a discussão, desejosos pelo desfecho!

- Desculpe-me senhor, mas você está equivocado! Continuou o rapaz.

- Como assim equivocado? Você sim é um jovem muito arrogante, que nada sabe da vida e deseja ensinar-me algo! Faça-me o favor. Aquelas palavras não eram verdadeiramente uma flechada no peito do rapaz, era um estobim estourado no rosto do velho. Era sua defesa; tal qual o animal selvagem encurralada num canto, ele estava defendendo-se como sabia e podia.

- Desculpe-me se faltei com desrespeito, esta não foi a minha intensão! Entretanto, acho que você deveria conhecer-me melhor antes de julgar-me arrogante e inesperiente. É certo que temos idades distintas, contudo maturidade nada tem a ver com idade e sim com experiências de vida! Eu posso ser mais jovem um terço da sua idade e ter vivido experiências mais profundas e válidas que o senhor em toda sua vida adulta!

O velho dessa vez nada respondeu, ficou apenas resmungando e já ensaiava chamar os seguranças! Após um pequeno instante de silêncio o jovem continuou:

- Quando eu disse que eramos semelhantes não referia-me a nossas roupas, nem a nossa classe social, nem às nossas riquezas materiais; referia-me àquilo que somos em essência, primeiro que tudo, ou seja, somos humanos! Quanto à realidade, ela possui muitas vertentes e você expôs-me apenas uma, negligenciando todas as outras! Uma que gosto muito é a que trata do fato de possuirmos uma "realidade" particular, individual; ou seja, cada indivíduo possui uma visão de mundo e consequentemente uma forma de refletir, armazenar e manifestar tais realidades! Sendo assim a minha realidade pode estar de acordo com a sua realidade, dependendo da visão de mundo que tivermos! Quanto mais semelhante formos, melhor será a maneira que veremos o mundo à nossa volta e nossas realidades tornar-se-ão mais próximas!

O Velho não podia acreditar que estava ouvindo tais palavras de um jovem tão, tão... fora da realidade! Tinha que concordar que toda aquela conversa fazia sentido, mas ainda assim não deu o braço a torcer.

- Tudo bem, concordo com seu ponto de vista, mas ainda assim você continua sendo um jovem muito mal vestido e de trejeitos rusticos!

- Desculpe-me senhor a minha intesão não era causar-lhe escândalo! É que acabo de chegar de viagem e meu dinheiro não era suficiente para comprar roupas novas. Mas não me importo com isso, pois acredito em algo: o que verdadeiramente importa é o que há dentro do homem, ou seja, o que torna-nos humanos! Nisso, somos semelhantes e não há roupa que mude tal situação. Após alguns estudos percebi que para muitos a realidade é algo ilusório. Muitos vivem presos em seus mundos esperando que algo extraordinário aconteça, mas não percebem que o extraordinário faz parte da vida cotidiana, desde o respirar até o nascimento de um novo ser vivo. Muitas vezes nos perdemos, tentando nos encontrar em meio ao caos; quando na realidade o caos é tudo quanto precisamos para viver e nos superarmos enquanto humanos! Mas desculpe senhor, não quero mais enchê-lo com minhas bobagens!

Neste instante um homem se aproxima. Trata-se do gerente do hotel, um homem rico e ainda mais excelso que o velho questionador. Ao chegar bem perto olha os dois individuos, aproxima-se do jovem e o abraça fortemente. Após esta cena, o homem dirige-se ao velho e diz:

- Vejo que conheceste meu filho! Ele é um menino muito estudioso. Imagine que com apenas trinta e dois anos já é Doutor em Filosofia. Dei-lhe uma viagem de presente, onde pôde conhecer os cinco continentes e diversas culturas. Tenho certeza que terão muito o que conversar nestes dias!

Atonito, o velho apenas confirmou tudo com a cabeça. Não conseguia esboçar nenhuma reação!

- Vamos meu filho, está na hora de tomar um bom banho e trocar suas roupas! Precisa descansar, pois na próxima semana viaja para Oxford! Você não pode perder seu curso por nada!
O jovem despediu-se do velho e disse:
- Nos vemos mais tarde!

3 comentários:

Marcello Benites disse...

Flávio, surpreendete o texto. Uma frase que me marcou: "Muitas vezes nos perdemos, tentando nos encontrar em meio ao caos; quando na realidade o caos é tudo quanto precisamos para viver e nos superarmos enquanto humanos!"
Abraço!

Flávio Nunes. disse...

Olá Marcello,
É sempre muito bom receber comentários e quando estes chegam de amigos tão queridos a felicidade é ainda maior!
Obrigado mais uma vez pela sua passagem por aqui e por doar-me parte do seu tempo!
Tenha um ótimo dia e sigo acompanhando o seu trabalho na revista!
Abração meu amigo,
Flávio Nunes.

Mary Kenchian disse...

Flavio,

Olha eu aqui de novo !!!
O que posso fazer não me canso de ler oque voce escreve.
Gostei muito do seu texto e do comentário do Marcello, no livro que estou lendo tem um trecho que diz que para nos encontrarmos é precismo que nos percamos só se perdendo é possivel se encontrar...
Estamos perdidos sem saber, nos escondemos numa casca que nos protege, mas é uma falsa proteção, assim como esse velho, com essa visão distorcida de valores.
Onde estão os nossos valores ?
É isso meu querido...

Ótimo dia pra ti...

Beijos
Mary

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