segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Tristeza!

Passava das 02:00h da manhã quando a campanhia tocou. Eram duas meninas, amigas e unidas numa mesma causa: salvar a vida de um cão!

Elas o trouxeram num carrinho de bebê. Ele gania alto, visivelmente sub-nutrido e com movimentos de pedalagem acentuados. Seria vítima de atropelamento? Teria sofrido uma queda? Será que foi mal tratado? Varias coisas passavam pela minha minha cabeça ao vê-las se aproximando com aquele cão, agora em seus braços. 


A consulta começa com o primeiro olhar disferido ao paciente. Ali, observando o comportamento e o aspecto físico do animal, começamos a direcionar a consulta e estabelecemos as perguntas iniciais necessárias a anamnese. Antes de qualquer palavra, vi o paciente, sua secreção ocular e incoordenação motora, associação nada boa num cão visivelmente debilitado.

- "Eu o peguei faz uns quinze dias. Passei em outro veterinário e ele me disse que era pneumonia". Começou uma das meninas.

Com o animal sobre a mesa pude avaliar melhor toda a situação. Não havia dúvidas, todos os sintomas apontavam para uma doença viral muito conhecida e altamente contagiosa, a Cinomose! Esta doença é transmitida através das secreções e excretas, ou seja, secreção nasal, saliva, urina e fezes. Quem causa esta doença é um vírus da família Paramyxoviridae e atinge animais das famílias Canidae (Cães domésticos e selvagens), Mustelidae (Furrões/Ferrets), Mephitidae (Gambás) e Procyonidae (Guaxinins/Mãos-peladas). O vírus no corpo do animal atua no Sistema Nervoso Central e Periférico. O vírus provoca a degeneração da bainha de mielina, envoltório lipídico que envolve os axônios dos neurônios, levando o animal a problemas de incoordenação motora, difculdade para mastigar, espasmos musculares involuntários, etc. Pela debilidade do organismo, as infecções bacterianas são comumente encontradas, sendo as principais relacionadas ao Sistema Respiratório e Trato Gastro-intestinal.


A medida que conversávamos, colhia fatos importantes sobre o animal e ia fechando o diagnóstico. Descobri que o animal foi adotado, junto com outros quatro, na mesma data. Todos vieram de uma área onde recentemente ocorreu uma catastrofe natural. Soube que na região onde estes cinco animais foram resgatados, está ocorrendo surtos do diversas doenças ocasionadas por bactérias, fungos e vírus. Muitos animais estão morrendo!


Fiz o procedimento padrão para atendimento emergencial e estabilizei o paciente, ao mesmo tempo que conversava com as meninas, responsáveis por ele. Era cinomose e infelizmente o caso dele era gravíssimo e irreversível, estava sofrendo muito! Após fechado o diagnóstico, conversamos com calma e verificar clinicamente as chances que o animal teria de melhorar e voltar á vida normal, ficou claro que sua vida seria de muito sofrimento e dor. Após alguns instantes uma das meninas ligou para a veterinária que atendeu o animal inicialmente e mais conversa. Por fim optaram pela eutanásia!


É sempre com muita dor no coração que, ao diagnosticar um paciente com uma doença irreversível, os donos optam pela eutanásia. Eu, como clínico, sofro muito todas as vezes que isso ocorre, pois estudei - e continuo estudando -, para salvar vidas; entretanto há casos em que a eutanásia é melhor que o sofrimento e a agonia de um animal enfermo. Após todos as avaliações feitas e re-feitas, elas se despediram do cãozinho e ficaram ao seu lado até que este dormiu profundamente. 


Desde a decisão até o desfecho, ouve muitas lágrimas. 






Vídeo ilustrativo:







Foto: http://www.canilneweverest.com.br/saude.php?lang=br

9 comentários:

Fábio disse...

É cinomose .... é complicado... Já fiz eutanásia em um animal, ou melhor foi o veterinário(logo que entrei na universidade), mas fiquei observando até o fim é muito triste, mas na opção: Sofrimento X Ética é complicado... tem que se pensar muito. Para tomar a melhor decisão relacionando todos os fatores.

Carla Viviane disse...

Chorei rios. Para o veterinário sério deve ser muito difícil mesmo. Fiquei compadecida com as donas. Tomara q elas não desistam de adotar outro cão e dar um lar pra outro bichinho q tb precisa.

Ká Oliveira disse...

É querido amigo... passei por uma dessas com um filhotinho e Graças ao nosso bom Deus, minha outra cadela pode ser curada, pois havia convivido 5 dias com o pequeno.. ele convulsionava muito no final, assim...
Tivemos 2 ferrets e ambos com o mesmo destino.. eles lutam muito pela vida mas no final é muita dor.. Hemorragia cerebral.. tadinhos, muitas lágrimas também..
Hoje tenho 2 jabutis, um peixinho beta e sou mãe de aluguel... uma fofa da raça shitsu ficará comigo por 3 meses...
Quão mais fácil é lidar com a bicharada...
bj enorme

Flávio Nunes. disse...

Olá Fábio,
Como você bem disse, Cinomose é complicado... entretanto, como alguém me respondeu no Twitter, assim como ela, eu também já tratei e curei muitos animais com esta doença, mas há uma mescla de coisas que precisam estar de acordo para que a cura seja satisfatória! Para resumir, precisa-se que o sistema imunológico do animal esteja bom, que ele não esteja tão desnutrido e desitradado, que os donos levem-no o quanto antes numa clínica, que o veterinário opte por exames extras (Para diagnósticos diferenciais) e que por fim o proprietário compre e faça toda a medicação/tratamento prescrito! Com aumentamos as chances de cura e temos como única causa, um descuido na hora da vacina e ou a infelicidade do paciente em estar numa área de risco.
Sim, é muito triste e tomar essa decisão não é nada fácil, pelo menos para mim enquanto clínico! Sou da opinião que a esperança é a última que morre, mas também sou da opinião que um animal não pode sofrer desnecessariamente só para o capricho dos donos (Sofrimento x Ética)!
Obrrigado mais uma vez pelo seu comentário meu amigo!
Abração,
Flávio Nunes.


Olá Carla,
Digo-lhe que para mim, fazer eutanásia é muito, muito difícil; mas existem momentos que infelizmente é preciso! Da mesma forma que adoro salvar vidas e ver os animais saudáveis, odeio em tamanha proporção ver o sofrimento de um animal!
Quanto as donas, acho que elas irão adotar outros animais! Mas por hora precisam preocupar-se com os outros quatro que estão com ela e não foram vacinados (Todos resgatados de um abrigo em Teresópolis)!
Obrigado pelo comentário e tenha um boa semana!
Abração,
Flávio Nunes.

Flávio Nunes. disse...

Olá Ká,
Caramba, que histórico este seu... imagino o tamanho do seu sofrimento! Perder um ser vivo é sempre muito triste e duro para um clínico, imagine para os donos!
Já tive animal de estimação, entretanto, por vários fatores, desde a faculdade que não tenho nenhum animal meu! Estou pensando em dar um Beta, ou outro peixe, para a minha noiva..rs.. Assim poderemos cuidar de um animal juntos..rs.. Acho que será uma boa experiência para ambos! Mais tarde penso noutro animal de estimação!
Legal os jabutis, sou especialista em animais selvagens/exóticos, quando precisar posso ajudar em algo! Basta escrever! Parabéns pela iniciativa de ser mãe de aluguel..rs..
Concordo contigo, quão mais fácil é lidar com os animais!
Abração minha amiga e tenha uma ótima semana!
Flávio Nunes.

MacPoint disse...

Saber q existem pessoas q sentem, como vc, a perda de um amigo de estimação, sobretudo sendo um profissional da área, é um alento.

Tem meu respeito e admiração. Um abraço.

Flávio Nunes. disse...

Olá MacPoint (Mário),
Primeiramente, obrigado pelo seu comentário! Quanto aos sentimentos, nesta hora tão triste e desconfortante para todos, nunca consigo controlá-los completamente! Graças ao bom Deus, nunca foi preciso, de minha parte, fazer tantos procedimentos como este, entretanto os que fiz, foram todos para sanar um sofrimento e uma dor sem igual e irreversível!
Obrigado pelas palavras, pelo seu respeito e admiração!
Abração,
Flávio Nunes.

Anônimo disse...

Olá meu amigo,
Saudades de poder escrever com mais frequência aqui!!!
=D)

Esse post me trouxe a lembrança de um grande amigo,o único cachorro que tivemos na família,na verdade era uma cadela...rs,mas isso é uma longa história!!Ela apareceu em nossa casa,numa noite chuvosa,meu imão e eu cuidamos dela na época e escondemos de nossos pais,por receio de não gostarem da ideia de acolher aquele animal esquelético,aparentemente desnutrido e fraco.
Bom,pela aparência debilitada e por não termos curiosidade em identificar o sexo do animal,naquela mesma noite acabei insistindo com meu irmão para podermos chamá-lo de 'micróbio',sim...você não leu errado,foi esse o nome.E mesmo depois de alguns dias,ao decobrir que era uma cadela,decidimos manter aquele nome peculiar.
Sempre acreditamos que era uma vira-lata,mas depois de algumas pesquisas descobrimos que era uma cadela Fox Paulistinha(Terrier brasileiro,seu temperamento não negava;ela era incansável,inteligente,brincalhona,com aquele pelo todo branco - adorava se sujar e odiava banho.
Enfim,encurtando um pouco a história...foram grandes momentos ao lado do 'micróbio',que ficou famoso pelo nome e, virou a grande paixão da família e dos amigos!!
O dia de sua morte foi um grande luto para todos.Deixávamos a cadela sempre solta na chácara,ela gostava de ficar livre e cuidar da segurança da casa.Num dia qualquer,ela caiu doente...descobrimos que foi por envenenamento,não foi possível nem chegar ao veterinário - pelo alto grau de envenenamento-,ela simplismente caiu quando estávamos passeando pela rua e, começou a se despedir,como se estivesse nos dizendo pelo olhar que nada mais poderia ser feito.Senti o mesmo desespero dessas duas meninas do texto e a angústia de não poder mudar o destino da minha cadela.
Ter convivido aqueles anos com ela já foi o suficiente para que ela deixasse sua marca e uma grande saudade.
Em 2011 faz 7 anos desde sua partida,rsrs...nunca tivemos outro cachorro(a),acho que uma cadela com o nome 'micróbio' será única pra sempre. =)
Futuramente penso em adodar algum,mas por enquanto,relembrar dos ótimos momentos vividos nas fotos me traz grandes lembranças!!!

P.S:Parabéns pelo sucesso do blog!!!Continue nos contando grandes histórias...

Bjs,
Thaísa Figueiredo

Flávio Nunes. disse...

Olá Thaísa,
Que grande história esta que contaste aqui! Fico muitíssimo grato por compartilhar comigo e com todos, esta parte da sua vida, tão bela, significativa e tão cheia de emoção!
Realmente não é comum criar um "micróbio" tão grande e espalhafatoso como um Fox Paulistinha..rs.. A minha Tutti, minha primeira cadelinha, também era uma Fox Paulistinha!!!! Lembro-me até hoje o dia da sua partida, mas principalmente dos momentos que passamos juntos! Ela era linda!!!!
Mais uma vez, obrigado pela sua presença aqui no Blog e pelo elogio...
Tenha um ótimo final de semana minha amiga!
Abração,
Flávio Nunes.

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