sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Afetividade Interespecífica Exacerbada!



"Afetividade Interespecífica Exacerbada"
Introdução

          Tenho percebido que nos últimos anos a relação entre seres humanos e seus animais de estimação vem sofrendo uma alteração acentuada. Os animais não estão sofrendo apenas pela negligência de seus donos, por outro lado, vejo que o excesso de zelo vem desenvolvendo diversas patologias nos nossos animais de estimação. Entre as patologias crônicas mais comuns, estão as gastro-enterites, pancreatites, nefrites, hepatopatias diversas, dermatoses, distúrbios alimentares, periodontites e transtornos comportamentais/psicológicos cada vez mais difíceis de controlar e tratar.
          Hoje em dia é muito comum ouvir dos proprietários que seus animais são na verdade seus "filhos", "irmãos" ou "netos". Muitos não entendem que uma dieta saudável para seus animais de estimação não pode conter pizzas, chocolates, biscoitos recheados, pão com café, macarronadas, arroz com feijão, etc. Há uma tendência cada vez mais forte de antropomorfizar os animais, ou seja, estamos lidando com os animais de estimação como "seres humanos" miniaturizados.
          Vejo que, enquanto Médico Veterinário clínico, jamais conseguirei tratar os animais e aumentar o seu nível de saúde e bem-estar, enquanto os donos e/ou seus responsáveis diretos continuarem tratando-os como "humanos em pele de animais". Para ilustrar esta afirmativa, digo que já deparei-me com donos que questionaram minha conduta clínica de contenção física e aplicação de medicamentos sub-cutâneos, uma vez que seus animais estavam "sofrendo maus tratos" e iriam ficar com muita dor após as aplicações, consecutivamente.
          Acredito que haja certa transferência patológica de sentimentos entre alguns seres humanos e seus respectivos animais. É um tipo de relação que ultrapassa a simples empatia, ou seja, o "colocar-se no lugar do outro", passando a ser quase um "sentir o que o animal sente" e falar o que "ele não consegue falar". O fato dos animais não falarem tal qual os seres humanos, está tornando-se um "defeito de fabricação" para muitos donos. Mas isso não é impedimento para muitos de nós, o que é evidente nos comentários que escutei durante as centenas de consultas que já fiz: "Ele(a) entende tudo o que eu digo", "Nós conversamos o tempo todo", "Eu pedi para ele(a) se comportar durante a consulta, senão não ia ganhar o biscoito quando chegasse em casa", etc. Estas e tantas outras "brincadeirinhas" estão ultrapassando níveis de simples divertimento e chegando ao ponto d'eu presenciar uma cliente sentada no chão do Petshop escolhendo roupinhas, botinhas, brinquedos e "guloseimas" para o seu "filhinho", ora falando normal e ora falando com uma voz "infantil", como se o animal que trazia no colo estivesse falando e dialogando. 
          Tudo isso misturado, virou uma bola de neve e um grande círculo vicioso. Graças a Deus, inúmeras campanhas estão surgindo para potencializar a adoção de animais abandonados. Percebeu o ponto nefrálgico da questão? Cães abandonados por seus donos estão lotando as ruas das cidades e, conseqüentemente, canis em ONGs e instituições particulares, espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. Tudo porque muitos seres humanos perderam o interesse em seus animais, pois deixaram de ser fofinhos e/ou passaram a desenvolver distúrbios comportamentais/psicológicos desagradáveis, entre outros motivos. O que muitos de nós, seres humanos, não sabemos é que somos nós o grandes causadores de inúmeras patologias em nossos animais de estimação.
          A culpa é dos animais? Não descartando a particularidade individual que cada animal possui, penso que eles são vítimas de seres humanos que, em pleno século XXI, não entendem e não aprenderam a lidar com seus companheiros não humanos.
          As análises psicológicas e biológicas são as principais fontes de dados, entretanto, e não menos importante, devemos analisar também os aspectos sociais e culturais, já que tanto os humanos quanto os animais domésticos estão neles inseridos. Se os seres humanos estão desenvolvendo algum tipo de patologia psicoemocional e transferindo-a aos seus animais, isso deve ser analisado sob a ótica psicológica, biológica e social. Só assim, com enfoque transdisciplinar, é que conseguiremos diagnosticar a fonte, que tipo, intensidade e quais os tratamentos possíveis para tal patologia.
          Certamente, este estudo por hora embrionário, levará os seres humanos a uma compreensão muito maior sobre si mesmo e sobre a relação saudável que precisa desenvolver e ter com seus animais de estimação.


2 comentários:

Ká Oliveira disse...

Oi Fla...
Sabe, o que os cães de antes da geração ração, comiam? Eram tratados como cães e todos viviam mais tempo e mais saudáveis. Creio que o defeito está no ser humano mesmo. Também acho que o médico "de cabeça" deveria levar em conta, em um tratamento, se o cidadão tem ou não um animal de estimação e como age com ele..
Esse é mais um assunto para uma mesinha de bar...
Grande abraço

Flávio Nunes. disse...

Olá Ká,
Só posso dizer uma coisa diante da sua resposta: Quanto vamos marcar o choppinho?!?!?!..rs.. Mais um assunto para se conversar e conversar...
Grande abraço minha amiga!
Abração,
Flávio Nunes.

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