sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Porção de Vida - #2

Hoje eu lembrei-me da minha avó. De pouca instrução, criou minha mãe e mais sete filhos. Nasceu na roça e lá viveu mais de 50% da sua vida. Casou-se jovem com um peão, que fora criado por uma mãe bondosa e um padastro mal humorado. Para crescer na vida e melhorar a qualidade de vida de seus filhos, profissionalizou-se e tornou-se marceneiro. Depois de alguns anos, meu avô foi morar na cidade com a família e passou a trabalhar no cemitério da cidade como zelador e confeccionador de caixões.

Meus tios, estudaram até onde deu e começaram a trabalhar ainda na adolescência. Enquanto uns ajudavam na renda de casa, outros ajudavam em casa. Aprenderam a reformar estofados, tacos, telhado,... Com muito esforço, compraram uma televisão preto e branco quando minha avó já era idosa. Desse dia em diante não precisava mais ir à vizinha com uma ou mais filhas para assistir a novela das oito. Para meu avô, o rádio sempre foi melhor.

Aprendi com minha avó que duas das coisas mais importantes na vida é ser bom e saber escolher bons amigos. Aprendi com ela que há muita gente ruim nesse mundo, mas as que são boas, faz o mundo valer a pena. Aprendi que os bons amigos são aqueles que podemos contar em qualquer momento e em qualquer circunstância. Aprendi com ela que há, muitas vezes, melhor amigos, muito melhores que muitos parentes.

Segundo ela, se vê um bom amigo, quando é uma boa pessoa, só de olhar para ela(e). Bom amigo, segundo minha avó, é aquele que lembra de você quando você se esqueceu dele. Que vê e prevê as suas necessidades antes mesmo que você próprio as veja. É aquele que lhe ajuda quando mais precisa e quando não precisa tanto assim. É aquele que fica feliz em lhe ver feliz. É aquele que lhe dá presente, de qualquer tipo e qualquer valor, mas sempre acerta no que você precisa.

Segundo a minha avó, não devemos sentir vergonha de receber presentes dos nossos amigos e dos amigos dos nossos amigos, afinal eles só nos querem ver bem e felizes. Quem nos dá presentes não nos quer ver tristes e nem passando necessidades. Quer ver-nos, em verdade, em paz. Por isso, não podemos recusar os presentes vindos dos amigos e de todos que nos desejam ajudar, uma vez que é uma alegria para esta pessoa nos presentear, tanto quanto o será em recebermos a prova de sua amizade, amor, carinho e compaixão. É um sinal de fraternidade e amor.

Minha avó, era analfabeta de letras e números e uma sábia na categoria vida e convivência. Não cursou nenhuma universidade, nem nunca sequer passou perto de uma, mas era doutora em dar conselhos e criar filhos e netos. Não tinha um diploma pendurado na parede, mas tinha os sentidos apurados. Sabia dar o ponto certo nos doces e fazer sabão como nenhuma outra pessoa que eu já conheci. Tecia colchas e tapetes de retalhos. Sua vaidade limitava-se em lavar bem os cabelos e manter seus vestidos sempre bem limpos e cheirosos. Tinha brincos, me lembro, contudo não passava disso.

Que saudade tenho de passar em sua casa antes de ir para a escola e comer pão quente, feito em sua panela velha sem cabo. Recebia seu beijo na testa e dava a bença, beijando sua mão direita. Depois saia para a escola. Voltava e o almoço estava quentinho. Poucas foram as vezes que a vi chorando. Tinha um sorriso angelical e era forte como uma rocha. Após a doença do meu avô, que durou três anos e alguns meses, morreu dois dias antes do mesmo. Em pleno Ano Novo, à dez anos, os fogos estouravam, nós chorávamos aqui embaixo e o céu ganhava mais uma estrela reluzente.


Foto: http://letrasessenciais.blogspot.com/2011/04/arte-de-ser-avo.html

2 comentários:

Ká Oliveira disse...

Oi Flá...
Li esse texto algumas vezes... muito emocionante o relato sobre sua avó.
A parte que mais gostei é quando fala de uma pessoa amiga, aquela que lembra de ti quando você se esquece dela?
A sabedoria dos mais velhos, só os sábios para reconhecê-las.
Grande beijo

Flávio Nunes. disse...

Olá Ká,

Obrigado mais uma vez pelo carinho e atenção. Que grande alegria saber que leu o texto várias vezes. É sinal que algo aí em seu peito foi tocado.

Quanto ao amigo de todas as horas, eu era um desses para muitos, hoje no entanto assim o sou para poucos. Tento com isso afastar a nocividade do isolamento.

Quanto à sapiencia, nesse quesito estamos em pé de igualdade.

Abração minha amiha,

Flávio Nunes.

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