sexta-feira, 9 de março de 2012

Começo dos Tempos - Conto!


Desde o começo dos tempos o ser humano, ou a "massa base" da qual derivamos e cujas narinas foram sopradas e os estômagos abastecidos por carne de caça, vem repetindo comportamentos e se esforçando ao máximo para ser aquilo que é.

Desde a sociedade mais primitiva, ou melhor, desde que entendemos que dois é mais forte que um e que cultivar requer menos esforços que caçar, nosso mal-estar começou. Foi à partir desse instante que descobrimos a importância da liderança, da fortaleza, do poder, da espiritualidade e da sedução. É claro que há outros fatores envolvidos, mas só estes, até a contemporaneidade, ainda dão o que falar.

Entendemos, filogenética e ontologicamente, que o mais forte pode se tornar o mais poderoso e que, por tal conquista, pode se tornar o líder de muitos. Esse "muitos" pode ser um grupo ou uma nação, dependendo da cobiça, ambição e/ou intenções daquele que comanda. Foi assim que muito tempo depois de comermos carne pela primeira vez e de já vivermos na polis, criamos um sistema brilhante de gerenciar quem manda e quem obedece para o bem (ou para o mal – dependendo do ponto de vista) de todos.

Reuniram-se os poderosos, líderes, homens e mulheres espiritualizadas e, é claro, as pessoas mais sedutoras, possuidoras de todas essas características. Várias cabeças pensantes e com poder sobre o céu e a terra estavam alí presentes convergindo e divergindo sobre vários assuntos de suma importância, como por exemplo, quem vai dar de comer a quem e o que servirá de alimento. Alguns elevavam a importância do pão e outros diziam, em contrapartida que nem só de pão vive o homem.

Entretanto o mais importante, o assunto de maior relevância, ficou por último. Afinal, quem iria se responsabilizar por tudo que desse certo e errado naquilo tudo? Diante de todas as responsabilidades que tal posto pedia, muitos se absteram e não se manifestaram. Foram poucos os que desejaram assumir tamanha carga sobre os ombros.

Foi então que o representante da linha espiritualizada levantou-se e falou que não era possível para nenhum ser humano ocupar tal posto, que isso seria impossível para qualquer ser vivente e por isso quem teria que se responsabilizar seria Deus. "Mas quem é Deus? Ele está presente no meio de nós?", quiseram saber. "É claro que está, e sempre esteve, desde o começo. Ele é o mais poderoso dos poderosos, o mais forte, o maior líder de todos e o mais sedutor, uma vez que mesmo estando longe é capaz de ver e mexer com os corações mais gélidos", respondeu o homem destemido.

"Que grande homem é este. Apresente-se", falou um dos candidatos ao posto mor, em alto e bom som. Não obtendo resposta alguma, voltou-se para o destemido homem e perguntou: "Onde está o seu representante? Onde está o seu Deus? Por que não se faz presente como todos os outros aqui nesta assembléia"? O homem, que estava com a cabeça abaixada, levantou-a, olhou bem fundo nos olhos do seu interlocutor e disse: "Somente um agraciado pode Deus pode vê-lo, senti-lo e tocá-lo. Ele se faz presente naqueles que o amam e a Ele são fieis".

Ouvindo tais palavras, uns poucos tiveram uma grande idéia. Decidiram utilizar suas características pessoais de persuasão e se auto-intitularam deuses. Alguns se bastavam a si mesmo e outros diziam ser a manifestação física de uma série de outros deuses que, como o Deus do homem destemido, estava num posto elevado e distante demais, entretanto o ajudavam em todas as tarefas que lhe fossem pedidas. Não restava dúvida, um desses deveriam ser o grande chefe e gerenciador do mundo e de todas as coisas.

Infelizmente, a intriga surgiu no meio deles, assim como a inveja e a ambição de ocupar o posto mais elevado dentre todos os homens e deuses. Desse momento em diante não se entenderam mais. Um se dizia homem suficiente para reinar, outros diziam que por serem também deuses, eram os mais aptos e outros diziam ainda que se não fosse Deus, Onipotente e Onipresente, o centro de tudo, nada adiantaria toda aquela assembléia e discussões.

Após algumas horas e nenhuma concordância, saiu cada um para o seu canto, irados e jurando a morte uns dos outros. O único que não esboçou nenhuma reação nociva foi o homem destemido, que falava do seu amado Deus. Contudo, este também enquanto ser humano procurava ser ouvido e se fazer entender. Enquanto os outros empunhavam suas armas para guerrear, este último ajoelhava-se e pedia pelas almas que não sabiam o que faziam.

De guerra em guerra, de conquista em conquista e de morte em morte, reis pereciam e outros nasciam. Chegaram a mudar a forma de se comunicar para que os outros não entendessem suas táticas. De fronteira em fronteira, nações foram erigidas e religiões foram criadas.

Deu-se então após longos anos, que alguns se cansaram de tanto sangue desperdiçado. Procuraram o homem destemido, que continuava sereno, e lhes ofereceram seus serviços em troca de paz e conforto espiritual. O homem que por tantos anos encontrava-se sozinho, daquele momento em diante passou a formar o seu exército, constituído por todos quantos desejavam mais que guerra e mais que sangue.

Aos poucos toda uma comunidade fora criada. Constituída por filhos, netos, pais e avós, todos passaram a arar sua própria terra e criar seus próprios animais. Deixaram suas armar de lado e passaram a dividir seu tempo entre trabalho, cuidados da comunidade, cuidados da família, estudos e práticas espirituais.  Em pouquíssimos anos, esta era a comunidade mais rica de todo o mundo conhecido.

Tal situação chegou aos ouvidos dos reis e rainhas dos outros povos, que até então continuavam guerreando entre si. Puseram-se de acordo e decidiram acabar com aquele povo pacífico, em busca de suas riquezas e dos segredos que guardavam para tamanha prosperidade. Não demorou muito, diversas famílias foram completamente dizimadas, alguns fugiram para as montanhas, outras para os campos, outras para as florestas e outros ainda para os mares.

Após todo aquele incompreensível  ataque, o líder dos povos guerreiros fez o homem destemido seu refém e antes de matá-lo quis interrogá-lo:

- Então você é o líder desse povo.

- É você que o dizes. Respondeu o velho.

- É você que diz ser abençoado por Deus, um Deus que ninguém nunca viu?

- Sou apenas um homem que faz a vontade do Pai que está nos céus.

- Que grande besteira é essa. Todos sabem que esse tal Deus não existe. O rei do oriente e do sul, são homens e deuses. Esses sim podem ser tocados e vistos, mas o seu é um grande covarde.

- Não diga sobre coisas que desconhece. Em verdade lhe digo que tanto o rei do oriente e do sul, que não são deuses de verdade, um dia irão perecer, entretanto o meu Deus jamais perecerá, jamais me abandonará.

- Onde está o seu Deus agora para lhe salvar? Quis saber o líder dos guerreiros, agora irado e com seu sabre apontando para o pescoço do velho.

- Queres mesmo saber onde está o meu Deus?

- É claro que quero. Onde Ele está? Diga logo seu velho insolente.

- Ele está diante de mim, gritando e apontando um sabre para o meu pescoço. Disse o velho serenamente, olhando fundo nos olhos do seu interlocutor.

Ao ouvir tais palavras o homem afastou-se e sentiu o sabre pesar a tal ponto que seu braço não agüentou o peso da arma e a deixou cair por terra. De um momento para o outro nada mais fazia sentido. “O que aquele velho louco estava dizendo? Como assim eu era o seu Deus? Nada disso fazia sentido algum”.

Todos que assistiam tal cena não entendiam o que estava ocorrendo e absteram-se de qualquer ato. Em meio a corpos mutilados, pessoas de todas as idades mortas e poças de sangue por toda parte, o velho manteve-se sereno, apesar da tristeza que lhe embevecia a alma.

O guerreiro voltou-se para o velho, com semblante completamente mudado, parecia desolado e arrependido. Aproximou-se do homem que quase matara a poucos minutos, ajoelhou-se à sua frente e disse:

- O senhor sabe quem sou? Eu sou aquele que quase lhe tirou a vida e que o fez sofrer por muitas mazelas. Mas agora não posso mais lhe fazer mal, pois me mostrou compaixão e abriu os meus olhos. Estou arrependido dos meus atos. Por favor, aceite-me como seu escravo. Se quiser pode retirar a minha vida agora mesmo.

Os outros não acreditavam no que ouviam, mas sem saber como se portar diante de tal situação, alguns embainharam suas armas e voltaram para seus reinos, outros aguardaram o desfecho de toda aquela situação. Após um breve silêncio o velho falou:

- Desculpe meu jovem, mas não tenho o poder de lhe furtar a vida. Somente Deus sabe o momento de dar e retirar uma vida. Quanto ao seu pedido, não posso escravizá-lo. Deus nos deu a liberdade e tal qual os animais da natureza, não posso mantê-lo sobe o manto da escravidão.  Aceito o seu arrependimento somente sob uma condição.

- Diga-me, faço qualquer coisa que me pedires.

- Deixe tudo para trás e abandone as guerras. Deus tem um plano muito especial para você e te ama imensamente. Ajude-me a reconstruir tudo quanto destruiu. Certamente Deus lhe recompensará abundantemente.

Assim sendo, a vida nasceu da morte. As guerras não acabaram, e receio que jamais acabarão, mas uma coisa é certa, enquanto houver homens fieis a Deus sobre a terra, não haverá guerra capaz de ceifar a vida de um homem destemido.


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