terça-feira, 29 de maio de 2012

O Colecionador de Palavras

Num país não muito diferente desse, onde haviam pessoas não muito diferentes dessa, morava um colecionador diferente de todos que já existiu. Ele se chamava José Peregrino, mas todos o conheciam como Jó. Apesar do curto nome e mais diminuto apelido, tinha um gigantesco espirito de aventura.

Senhor Jó é um colecionador nato e transformou seu hobby em profissão, o que lhe rendeu uma boa sorte de dinheiro. Com tudo que ganhou, fez jus ao sobrenome e percorreu o mundo atrás de relíquias para suas coleções.

Começou colecionando chupetas. Até os três anos de idade, tinha pelo menos umas cinquenta, de varias cores e modelos. Entretanto, para os curiosos saberem, ele não as utilizava, gostava mesmo era de tê-las à sua disposição. Era isso que lhe fazia feliz.

Depois disso foi uma questão de tempo e oportunidades, para montar suas primeiras coleções. Durante toda a vida, inúmeros foram os objetos que em suas mãos passaram. Colecionou pedras, selos, cédulas, folhas, insetos, escamas de peixe, figurinhas, móveis, bótons, talheres, cerâmicas, carros, bolinhas de gude, chaveiros, chapéus, quadros raros, xícaras, réguas, sapatos, gravatas, etc, etc, etc. Se algo lhe chamasse a atenção, bastava a primeira aquisição para desencadear o processo.

Casou-se com uma mulher muito bonita e bem organizada. Formada em Arquivologia, Dona Anna organizava tudo quanto era trazido por seu esposo. Não tinha uma só viagem em que não voltava com meia dúzia de objetos para sua coleção.

O tempo passou e Sr. Jó já não tinha mais a mesma energia que outrora. Realizar as viagens estava ficando deveras cansativo. Dona Anna percebeu que seu velho esposo começou a passar horas, dias, semanas, na biblioteca de casa. Esta era, sem sombra de dúvidas, a coleção mais importante e da qual Sr. Jó mais se orgulhava; a coleção de livros raros. Havia ali publicações raríssimas e únicas no mundo. Muitos livros estavam autografados ou eram a primeira edição. Sr. Jó adorava estar em meio aos livros.

Certo dia, Dona Anna percebeu que seu esposo entrou na biblioteca munido de uma resma de papel, caneta e tinta. Achou estranho, uma vez que, possuidor de uma memória privilegiada, nunca se deu ao luxo de tomar nota de nada. Pela surpresa, após algum tempo, foi conferir o que estava ocorrendo.

Ao entrar na sala, encontra Sr. Jó imerso em suas anotações na escrivaninha. Pegava uma folha daqui e outra dali, escrevia sem parar. A mulher chegou bem perto e com toda delicadeza lhe perguntou:

- O que está fazendo aí meu velho? A memória lhe falha?

- Estou envolvido no meu maior projeto de coleção. Respondeu o velho homem.

- Não entendo. Escreverás um livro?

- Talvez seja um livro, mas ainda não sei.

- Mas afinal, o que fazes?

- Sei que não posso mais viajar, por isso colecionarei Palavras.

- Palavras? Quis saber sua amada esposa.

- Isso mesmo, Palavras!

- E como se coleciona... Palavras?

- Simples. Basta pegar tudo que se aprendeu - e que se aprende -, e dividir por categorias. Nada diferente do que já fizemos até então. É uma grande coleção. A coleção mais majestosa e mais complexa que já tive. Sinto que será inesgotável.

- Mas como fará isso?

- Já estou fazendo. Acabei de começar.

Ao olhar as folhas que estavam espalhadas sobre a mesa, Dona Anna não conteve a emoção ao perceber que seu velho esposo jamais deixara de ser o que sempre fora. Pegou a folha número um e começou a ler:


Folha 01: Sobre a coleção de Palavras.

A primeira palavra que aprendemos é AMOR. Palavra não dita, mas vivida e doada gratuitamente por aqueles que mais nos querem bem. Pensar isso remete a outra palavra de tamanha importância, FAMÍLIA, que por si só externaliza e materializa o sentimento dos sentimentos. FELIZ do homem que tenha encontrado em sua vida tamanho amor.

AMOR - Categoria: UNIVERSAL;
FAMÍLIA - Categoria: AMOR;
FELICIDADE - Categoria: AMOR UNIVERSAL;
AMOR UNIVERSAL - Categoria: DEUS;
DEUS - Categoria: AMOR.

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