quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Conto - O Estranho.

Rubert Lionel de Kiev era um típico trabalhador pós-moderno. Ligado sempre às novidades tecnológicas, tinha o emprego dos sonhos. Formado em Ciência da Computação, auto-didata e "nerd" por natureza, passava mais de doze horas diárias na frente do computador. Era coordenador de um grupo de cinco funcionários, numa empresa estatal, cuja função era prestar serviços e consultoria à diversos setores, filiais e outras empresas do ramo de tecnologia.

Conheceu Kim Wada, sua esposa, no encontro presencial da pós-graduação que fizera em Inteligência Artificial e Robótica. Ela era descendente direta de japoneses, ele tinha sangue inglês e ucraniano correndo nas veias. Uma mistura e tanto, que deu origem a um amor autêntico e, certamente, duradouro. Dessa união, não demorou muito nasceu Kato de Kiev, um belo e forte garoto. Pesando quase quatro quilos e cinquenta e dois centímetros de comprimento, o pequeno Kato fora considerado o maior do berçário.

Com a chegada do seu pequeno e amado filho, Rubert passou a fazer horas extras ao menos duas vezes por semana, uma vez que as despesas haviam aumentado e agora já não eram mais dois em casa. Ainda bem que demoraria um pouco até que o pequenino começasse a se alimentar de algo que não fosse o leite, entretanto, Rubert era precavido e possuidor de uma mente extremamente racional e calculista. Certa vez Kim pegou-o imerso em papéis, canetas e calculadora. Quis saber do que se tratava, e seu esposo lhe disse: "Estou calculando o quanto deveremos economizar para que Kato chegue na universidade com uma margem de lucratividade alta em sua caderneta de poupança. Uma vez que terás custos elevados com transporte, alimentação e com a compra dos livros"! Kim já conhecia o marido e não se enraiveceu com isso, uma vez que tais atitudes eram mais fortes que ele.

Kim sentia apenas que, às vezes, Rubert dava mais ênfase ao trabalho do que à vida familiar. Ficava com medo de Rubert não acompanhar o crescimento do filho, aproveitando cada fase de forma plena. Por isso conversaram bastante, mais de uma vez, por longas horas, até que Rubert prometeu tirar um dia de folga para dedicar-se completamente à família. Mas isso nunca chegou a ser concretizado.

Certa manhã, Rubert acordou e percebeu que Kim não estava ao seu lado na cama. Levantou-se e a procurou pela casa, encontrando-a dormindo no sofá da sala com o pequeno Kato nos braços. Era uma imagem linda de se ver, uma vez que o sol da manhã, batendo na janela da sala, penetrando pela malha da cortina, deixava o ambiente com um clima de paz e frescor. Virou-se sem fazer nenhum estardalhaço, caminhou até o banheiro e lá tomou seu banho matinal, em seguida saiu, trocou de roupa e tomou seu sempre ligeiro café da manhã. Passou pela sala mais uma vez, contemplou aquele linda cena, beijou sua esposa na face e seu filho no alto da cabeça, saindo em seguida para o trabalho.

Depois de algumas horas, sentiu-se cansado, muito cansado. Aquele dia realmente estava repleto de atividades e muitas delas precisava de sua supervisão direta. No fim do dia estava exausto, um caco. O que mais queria era chegar em casa, tomar o segundo banho do dia, o banho de relaxamento, comer algo e dormir. No caminho de casa, ligou para sua esposa dizendo que já havia saido do trabalho e que precisava descansar. Queria saber se faltava algo em casa e se era para passar no mercadinho da esquina. Kim disse que não precisava comprar nada, que tudo estava sobre controle e que o aguardava ansiosa. Rubert sentiu a voz da esposa um pouco rouca e também esboçando um certo cansaço. Pensou: "Bebês realmente dão um pouco de trabalho nesta fase. Já sei, passarei no mercadinho e comprarei um jarro de flores para Kim, ela vai gostar"! Assim o fez.

Estacionou o carro na garagem, entrou em casa e depositou o jarro com as folhes sobre a mesa da cozinha, assim Kim iria ver com certeza. Ela adorava flores amarelas. Rubert comprou a mais amarela e a mais florida que havia no mercadinho. Depois disso olhou melhor para o ambiente onde estava e achou que algo não ia bem. Estranhou o ambiente. Era como se tudo estivesse envelhecido num único dia e certos aparelhos haviam mudado de lugar, assim como a cor da geladeira. "Será que Kim comprou coisas novas e mudou tudo sem me avisar"? Pensou. Caminhou pelo corredor e ao entrar na sala tomou um choque; havia um homem deitado no sofá.

Rubert imediatamente pousou sua bolsa no chão, caminhou lentamente e viu que se tratava de um jovem, com idade entre quinze e dezoito anos, com tatuagens nos braços e barba por fazer. Dormia tranquilo sobre o sofá. Sem que o jovem percebesse a sua presença, saiu da sala e voltou para a garagem onde passou a mão na primeira ferramenta de ferro que encontrou no caminho, retornou e ponto inicial e antes de efetuar a desgraça, escutou Kim gritando: "Rubert, pare! Solte isso agora"! Com o grito a chave de rodas caiu no chão e o jovem acordou num susto, levantando-se num pulo do sofá.

Rubert correu ao encontro da sua esposa. Estava amedrontado e ao mesmo tempo curioso, "Como afinal, aquele jovem foi para no sofá da sala? E onde estava o pequeno Kato"?

- Kim, quem é este homem? O que ele estava fazendo dormindo no nosso sofá?

Kim, olhou para Rubert e sem saber o que responder para o marido, conseguiu dizer apenas o seguinte: "Ora, ele já faz isso a pelo menos dez anos. Você ainda não se acostumou com o fato"? Como assim, "não me acostumei com o fato", pensou Rubert. Quem afinal era aquele jovem? O homem vendo sua esposa tranquila e o jovem sem esboçar nenhuma reação, ainda com semblante sonolento, pôs-se a questionar tudo e todos.

- Kim, eu exijo uma explicação, o que está acontecendo? Quem é este jovem? E você fedelho, o que pensa que está fazendo deitado no sofá? Não tem mais nada para fazer? Como você veio para aqui.

Antes mesmo que a esposa pudesse falar, o jovem abriu a boca:

- Caramba, todo o dia é a mesma coisa. Que situação horrível. É por isso que gosto de dormir na casa da Marcinha. Os pais dela gostam de mim, não ficam falando no meu ouvido e fico longe de tanta encheção. Mãe, quer saber, perdi a fome. Pai, de uns tempos para cá você está cada vez pior, acho que você "tá" precisando ser internado numa clínica psiquiátrica. Vou para o meu quarto, depois como qualquer coisa.

O jovem saiu pisando duro e no fim do corredor só ouviu-se o som da porta batendo. O silêncio pairou sobre o ambiente. Kim, sentou numa das cadeiras da mesa de jantar e Rubert continuou parado em choque, após presenciar toda aquela cena.

- Ele, ele... é... o nosso......

- Sim Rubert... é claro que o nosso filho. Quem mais poderia ser? Uma das únicas oportunidades que temos de jantar com nosso filho e você o trata assim? Onde é que você estava com a cabeça? Você ia bater nele com aquela chave de rodas. Meu Deus, o que está acontecendo?

- Mas Kim, como eu ia saber. Hoje de manhã quando saí de casa eu deixei você e Kato dormindo no sofá e quando volto para casa eu encontro um homem deitado no sofá.

- Do que você está falando? Kato já vai completar acabou de completar dezenove anos, não faz nem dois meses. Ele não quer ir para a faculdade, se encheu de tatuagens e essa tal Marcinha também não é flor que se cheire. Estou vendo a hora dela bater qualquer hora na nossa porta falando que está grávida do nosso filho.

- Mas como, como isso é possível? Eu saí de casa e ele era tão pequenino e você...

- Pare com isso Rubert. Pare de se fazer de desentendido. Pare de inventar desculpas para si mesmo e tentar justificar a sua ausência de anos, com uma historinha sem cabimento. Quer saber? A culpa de tudo isso é sua. Se pelo menos tivesse passado mais tempo ao nosso lado, ao lado do seu filho, acho que nada disse estaria acontecendo.

- Mas como? Eu não tive tempo de aproveitar nada, eu nem percebi que era ele. Como pode nosso pequeno ter crescido tão rápido?

Foi então que Rubert percebeu que a sala também já estava igual àquela que ele havia deixado quando saiu mais cedo, no mesmo dia. Haviam muito mais livros na estante, o sofá não era mais o mesmo, e nem mesmo a televisão era a mesma. O que mais lhe impressionou foi ver, agora de forma clara, que sua esposa também envelhecera. Tudo estava envelhecido, passado. O homem sentiu um aperto no peito, não fossem suas pernas falharem, ele teria saído correndo daquele ambiente.

- Mas como isso pode ter acontecido? E os aniversários dele? E nossas festas de casamento? E nosso sonho de viajar o mundo? Não me lembro de nada disso.

- Claro que não vai se lembrar. Você nunca esteve presente. Sempre trabalhando como um louco, achou que uma vida de conforto e que dinheiro no bolso eram mais importantes que estar presente com sua família. Sempre foi eu que fiz as festas de aniversário do Kato, era eu que participava das reuniões no colégio, era eu que o levava ao hospital quando passava mal. Nunca comemoramos nosso aniversário de casamento longe daqui. Quanto às viagens, nunca tinha tempo para deixar o trabalho e sair, nem que seja por cinco dias , rumo a algum lugar que não fosse o shopping mais próximo. Rubert, sinceramente, você foi um pai que proveu muitas coisas para nós, contudo foi horrível na criação do nosso filho.

Sem saber o que falar, o homem fez a pergunta mais tola de todas:

- Só temos o Kato como filho? Por que não tivemos outros filhos.

- Eu não acredito que você tocou neste assunto, logo agora. Se esqueceu também que na gravidez de nossa filha eu tive várias complicações e a perdemos assim como meu útero deve que ser retirado junto. Você não quis optar por adorar nenhum outro filho, e achou que foi "bom" ter ficado só com o Kato, uma vez que as despesas seriam menores.

- Eu não... me lembrava... mas...

- Rubert, pára com isso. Está me dando nos nervos, vê-lo com essa cara de espantado. Como se você já não soubesse de tudo isso. Tudo culpa do seu patrão também, que lhe deu aquele maldita promoção a anos atrás. Foi por culpa dessa maldita promoção e da minha doença que eu tive que me afastar da universidade. Isso afastou mais você de nós.

- O que fiz com minha vida? Perguntava-se internamente o homem, sem saber como tudo aquilo tinha ocorrido e ele simplesmente não se lembrava de nada.

Não demorou muito ouviu-se uma porte se abrir, era Kato que saiu do seu quarto e adentrou a sala onde os pais estavam.

- Pai, quero lhe pedir desculpas. Sei que você não esteve muito presente nos últimos anos e que se esforçou  bastante para me dar o melhor. Sabe, acho que vou para a faculdade. Andei pensando em Engenharia Mecatrônica, o que acha? Se puder e tiver tempo, poderíamos conversar um pouco sobre isso mais tarde, pode ser?

- Pode ser, pode ser. Respondeu o homem.

Enquanto Kato voltava para seu quarto, o homem levantou-se e foi até o banheiro. Kim continuava de cabeça abaixada sobre a mesa e não dizia mais uma só palavra. Ao sair do corredor e acender a luz do banheiro, Rubert tomou mais um grande susto. Viu-se no espelho e entrou em prantos. Sua face estava envelhecida e seus cabelos mais branco do que preto. Tinha uma cicatriz na testa, que não fazia a mínima ideia de como o havia adquirido. Estava com olheiras, escuras como a borra de café. Vestia uma camisa surrada de tão velha que era. Os dentes estava amarelados e a coloração levemente amarelada da pele o assustou.

Agora já não adiantava mais, o velho Rubert deu-se conta que o tempo realmente havia passado e que perdera os anos mais felizes da vida do filho. Num rompante de pensamentos, lembrou-se, como em flashs, de passagens de sua vida, que se resumia em telefonemas, desculpas, atrasos e muito, muito trabalho. Lamentou por tudo e teve que suportar a dor de uma vida perdida. Ainda dava tempo de trilhar um novo caminho, mas tudo o que passou, infelizmente, nunca mais voltará.


Foto: http://blogdoseleitos.blogspot.com.br/2011/03/as-diferencas-entre-o-novo-calvinismo-e.html

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