sábado, 17 de dezembro de 2016

Crônica - O Velho Mecânico.

(Qualquer semelhança e analogia com a vida é mera coincidência):

Havia numa vila, um velho mecânico, que apesar da pouca idade sofrera muito com a perda de sua família. Um belo dia ele acordou e percebeu que todos foram embora, a casa estava vazia. Não havia mais um lar. Ao fechar os olhos, em seus sonhos e pensamentos, ainda podia senti-la por perto, mas a distância entre eles estava gigantesca. 

Querendo entender o que tinha ocorrido, sentou-se em sua poltrona velha e contemplando a dança das chamas na lareira, pôs-se a pensar:

Acredito que eu tenho feito coisas boas ao longo da vida, mas fracassei onde não poderia e não deveria. Busco recomeçar todos os dias e isso já ocorre a algum tempo. Infelizmente a máquina emperrou, pois meus erros causaram danos demais. Lamento por isso e pelo fato te ter nascido artesão e não mecânico. Entretanto, uma vez identificados os problemas, deixei meu ofício de artesão para aprender a arte da mecânica, contudo o processo é lento e não tenho bons mestres para me ensinar. Estou tendo que aprender com erros e acertos. 

O tempo passa e o Mal regozija-se com minhas derrotas. Meus inimigos crescem a cada dia, meus concorrentes, vendo que não mais exerço minha arte, estão me superando e conquistando meus antigos clientes, bons clientes por sinal. Deixei de ser artesão e não sou um bom mecânico. 


Meus inimigos riem da minha cara, ao mesmo tempo que meus amigos se vão, pois percebem que tenho gastado tempo em algo que não traz proveito algum para nossa amizade. Eles sentem que os abandonei; de fato o fiz! Todos se afastam aos poucos. Mais e mais o Artista deixa de existir, para dar lugar ao Mecânico. Troquei os pincéis e o cizel, deixei de ver as curvas, a beleza e a delicadeza que existe na madeira bruta. Agora lido com metal, ferrugem e graxa. Acordei e percebi que algo mudou dentro de mim e isso está se refletindo no mundo ao meu redor. 


Todos me elogiavam, sentiam orgulho e satisfação em ter-me por perto. Hoje porém só recebo olhares inquiridores, sorrisos opacos e falsidades. Sinto que minhas raízes não estão conseguindo mais retirar os nutrientes da terra e que a força do vento tem conseguido me levar para o lado que este assopra. Estou perdendo minha robustez, estou ficando fraco a cada dia, a luz está se apagando. O que farei quando tudo tornar-se escuro de vez? Nem mais o novo ofício conseguirei exercer, pois não conseguirei encontrar as ferramentas certas.


Deus, o que queres de mim?


Sinto-me incapaz, fraco, fracassado, pobre,... Se ao menos eu voltasse a ser Artesão! Que alegria era pegar matéria bruta e vê-la moldando-se, ganhando forma e beleza. Hoje perdi a sensibilidade do tato, meus olhos não conseguem retirar nada de bom do metal frio e não conseguem mais encontrar a beleza na matéria bruta. Como isso foi ocorrer? Como fui deixar isso acontecer? Ingenuidade? Despreparo? Comodismo? Excesso de confiança? Cegueira? Os sonhos tornaram-se pesadelos. Onde havia diálogo, hoje impera soberano o silêncio; isso é angustiante. A vida está se esvaindo aos poucos.

O mecânico assumiu todas as responsabilidades e toda a culpa. Começou então a procurar soluções, mesmo achando que era tarde demais não quis desistir daqueles que amava. O problema é que não sabia por onde começar. Afinal, para onde teriam ido? Estavam passando por algum tipo de sofrimento? Por um instante pensou em desistir de tudo, ir até a ponte na entrada da vila e de lá pular no meio das pedras. Seria uma morte dolorida, mas eficaz. Entretanto, abandonou completamente esta ideia na mesma velocidade que surgira, pois sabia que esta não era a solução. Sabia que sua partida não resolveria o problema em que se encontrava, na verdade iria potencializá-lo. Seu coração apartava no peito só de pensar que seus amados viveriam desprotegidos, à sombra da derrota e não da superação,da vitória. Definitivamente, desistir não estava em seus planos.

A vantagem de estar só, diante de todo aquele turbilhão é que poderia buscar e encontrar a melhor solução, sem ter que preocupar-se com aborrecimentos, críticas, pre-conceitos, agressões verbais e ser menosprezado em suas potencialidades. Mas o que queriam dele afinal? Ele era por natureza um Artesão e não Mecânico. Ele fez-se Mecânico consciente, mas não porque quis de fato, foi levado a isso. O convenceram que ser Mecânico era melhor, mais racional, mais palpável, mais adulto; e que ser um artesão, um artista, um sonhador, não lhe traria o status e o respeito que necessitava para sobreviver neste mundo caótico em que nos encontramos. Ao escolher ser Mecânico, escolheu também crescer, ser adulto, assumir responsabilidade cunhadas/forjada a ferro e fogo. A criança que outrora ocupava boa parte da sua alma, hoje encontrava-se escondida debaixo dos lençóis, no canto da cama, com medo do bicho papão ou ainda pior, com medo de tomar uma surra, simplesmente por existir. Estava ali escondido, chorando baixinho, quase imperceptível, com medo de levantar a cabeça e defrontar-se com o que não queria encarar de frente. 

Por fora aparentava um homem formado, endurecido com o tempo, rancoroso e carrancudo. Entretanto, interiormente, diante de todo aquele sofrimento, ele ainda era um menino, de olhos amendoados, que não entendia bem as coisas da vida. Não entendia porque o mundo batia tão forte, porque os machucados eram tão profundos e porque as cicatrizes demoravam tanto para cicatrizar. O Velho homem agia da maneira que aprendera e tentava fazer o certo, mesmo sabendo que poderia dar tudo errado. Infelizmente, tinha uma grande dificuldade em aprender com seus erros, o que o levava a cometê-los varias vezes até que a dor fosse tão insuportável que a memória era criada. Daquele momento em diante ele sabia que até seu ultimo suspiro, não erraria mais naquele aspecto. Alguns erros aprendia rápido, outros tantos levou anos para aprender; e outros ainda estava aprendendo e os repetindo ainda hoje. Sabia das suas limitações, porém enervava-se todas as vezes que lhe apontavam seus erros repetidos. Isso ocorria pois para as pessoas o erro era visível e seus limites eram invisíveis. As pessoas não estavam preocupadas em entender e ajudá-lo a trazer a toma o que nele estava oculto, mas somente em apontar seus defeitos, colocando o dedo tão fundo quanto poderiam em suas feridas. Como um machucado pode cicatrizar assim? Como ele pode encontrar paz, em meio ao sofrimento e à dor? Estava se colocando como vítima? Não, ele só desejava entender o porque lhe pediam constantemente para chegar ao fim da corrida, ao mesmo tempo que surravam suas pernas, à ponto de quebrá-las a qualquer instante. 

Após muito pensar, o Velho homem finalmente encontrou uma solução. Deixou o ofício de Mecânico de lado e pôs-se em latência total. Suas dores passaram a ser suportáveis, as feridas abertas já não incomodavam tanto quanto antes. Assim permaneceu por longas horas. Num rompante de emoções, foi à sua oficina e construiu, à seu modo, um novo coração. Sem protelar, substituíra seu coração de Artesão, por um coração de metal. Ao fazer a substituição percebeu que seu velho coração havia suportado tudo até aquele momento. Seu antigo coração era de madeira e nele estava entalhado diversas marcas, disformes e grosseiras. Havia apanhado à golpes de machado e não trabalhado no cizel, tal qual o homem imaginara. Foi então que percebeu o inevitável, seu novo coração de ferro, frio, porém mais pesado e resistente, seria capaz de suportar mais a dureza daquele mundo. Para um Artesão, um coração de madeira bastava, mas não serviria tão bem para um Mecânico. Agora, um coração de metal, é completamente compatível com o ofício do Mecânico. 

Ao colocar no peito seu novo coração, seus olhos se abriram novamente. Pôde ver a vida não sob a ótica de um bom Artesão, mas agora era capaz de ver o que outrora não era capaz de enxergar. Tornara-se completo e conseguiu daquele momento em diante exercer com esmero o seu novo ofício. Foi questão de tempo até que seus amigos percebessem isso. Quanto aos seus inimigos, estes continuaram a lhe atacar e fazer mal, mas a resistência do seu coração agora era muito maior. 

Sua família ainda não estava reestruturada, mas pôde sentir que era questão de tempo até pudesse reencontrá-los. Restava saber se eles iriam aceitá-lo com um coração novo, mais endurecido, porém mais resistente as intempéries da vida. No fundo era isso que queriam dele, mas a que preço? O menino ainda habita em seu interior, agora protegido, mas oculto num lugar onde só o Velho Mecânico consegue encontrar. 


Foto: http://www.kompatscher.eu/en/ciro-2.html 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Meu Alimento!

O alimento do meu corpo é diferente do alimento da minha alma. Sinto fome e sede de coisas boas e não só de boas coisas. Meu corpo se sacia com qualquer pedaço de pão, migalhas de biscoitos, restos de comida,... que em bom estado nutri minha carne cada vez mais envelhecida. Entretanto, faz parte da minha natureza, desejar e querer mais e mais, de um tipo de alimento bem especial, cada vez mais escasso nos dias de hoje. Minha alma anseia por gotas de sorrisos, de abraços, de suspiros,... por pedaços de atenção, de fé e de compaixão,.... por baldes de beijos, de cumprimentos e de Amor.

Tais alimentos não se encontram em qualquer lugar, são raros. Começando por seu cultivo, se não existir terra fértil e nem a atuação de um bom agricultor, não haverá terra no mundo capaz de fazer brotar um ramo sequer de abraços, de compaixão e muito menos de Amor. Este último tem uma particularidade, é o mais difícil de cultivar, por vezes é preciso calma e paciência, pois a casca da sua semente é resistente. Se as condições não forem favoráveis, pode esquecer, ele não vai nascer; entretanto, se tratarmos bem o solo, adubá-lo, hidratá-lo adequadamente e tivermos paciência, no momento certo ele nasce e enquanto estiver vivo, ele se desenvolve e se multiplica por onde estiver. Depois que nasce, a manutenção deve ser constante, pois há ervas daninhas e é com estas que devemos ter o maior cuidado. Se por qualquer motivo, descuidarmos e as ervas daninhas crescerem ao redor de sua base, aos poucos o Amor vai minguando, até que infelizmente ele é abafado por algo que não lhe faz bem.

O Amor, assim como a fé, a compaixão, os abraços, os beijos e os suspiros de felicidade, são alimentos que minha alma anseia constantemente, mas nem sempre encontro por aí para saciar este meu desejo tão primitivo. O desejo de estar bem, viver bem, sorrir por coisas banais do dia-a-dia, dar e receber afagos, carinhos, ou ainda, o desejo de receber apenas pequenos olhares, que por vezes não duram mais que cinco segundos, mas são capazes de me encher de energia por um dia inteiro.

Meu alimento não limita-se apenas em saciar o corpo, preciso alimentar também a minha alma. Se eu sintir fome de bondade, de carinho, de amor e não comer destes frutos, de nada valerá alimentar meu corpo físico, uma vez que minha alma terá morrido, dando lugar apenas a um vazio sem sentido.


Foto: http://cleofas.com.br/wp-content/uploads/2013/04/alma-morrendo-62c44.jpg

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